Naquela noite, quando Harry subiu as escadas até aos dormitórios dos Gryffindor, tudo lhe parecia irreal. Sentia-se mais confuso do que julgava ser possível. Agora toda a escola devia achar que ele era um batoteiro e que tinha encontrado maneira de se inscrever no torneio. Não era que ele não estivesse habituado a ser olhado de lado nem a ser insultado mas, quando conheceu Jennifer, começou a ter esperança que este ano fosse completa e inteiramente normal e talvez, muito hipoteticamente, despreocupado, divertido e sem acontecimentos bizarros.

            - Balderdash… – disse ele à dama gorda algo a medo. Como iriam os seus colegas de equipa reagir? Mas, mais importante ainda, como iria Jenny reagir? Iria ela acreditar nele?

            -  Se tu o dizes – respondeu o retrato expondo uma passagem para a sala comum dos Gryffindor.

            Harry pensou que os seus tímpanos iam explodir: assim que entrou na sala foi recebido por uma imensidão de aplausos e gritos.

            - Harry! – gritaram os gémeos Weasley puxando-o para dentro da sala e pondo-lhe nas mãos uma garrafa de cerveja de manteiga – Como é que fizeste aquilo?! Como é que puseste o teu nome no cálice?!

            - Eu…eu…não pus! – tentou explicar-se Harry.

            - Pois, ‘tá bem e eu sou um caranguejo de fogo bêbado! Também, deixa lá. Anda festejar com o pessoal!

            - Não, a sério. Já é tarde, estou muito cansado – disse Harry. Só queria encontrar a Jenny, a Hermione, o Ron… ou alguém que acreditasse nele.

            Só algum tempo depois é que Harry se conseguiu desembaraçar dos gémeos e de toda a gente que teimava em puxá-lo cada vez que ele se aproximava dos dormitórios. Finalmente, por volta da uma da manhã, conseguiu evadir-se, dizendo que voltava logo a seguir a escrever uma carta a Sirius, o seu padrinho, a contar-lhe o sucedido.

            Quando estava a subir as escadas que davam para os dormitórios deparou-se com Jennifer, Hermione e Sophie sentadas num degrau a conversar.

            - Olá! – cumprimentou-o Jenny com um sorriso. – Estás bem?

            - Sim…bem… – começou ele.

            - Estávamos aqui a tentar descobrir quem pôs o teu nome no cálice. – interrompeu-o Sophie num tom energético.

            - Vocês acreditam em mim? – perguntou Harry, incrédulo.

            - Oh, claro que não – ironizou Hermione – nós achamos mesmo que tu arranjaste uma maneira super elaborada de te inscreveres no torneio para te, muito provavelmente, humilhares em frente a toda a escola.

            - Obrigada pelo apoio… – resmungou Harry.

            - Bem quer dizer… não era bem isso que eu estava a insinuar – Hermione tinha adoptado agora uma cor escarlate – De certeza que te vais sair bem.

            - Bem, Hermione – disse Sohpie – acho que devíamos ir andando, não achas?

            - Ah, sim, claro. Só te queríamos dar os parabéns, longe da confusão. – Concordou Jenny.

            - Sabes Jenny – disse Hermione – se calhar devias ficar, tu e o Harry deviam falar um bocado.

            - Mas…! – protestou Jennifer em vão pois Hermione e Sophie tinham descido as escadas a uma velocidade alucinante e já se encontravam longe da sua vista.

            - Harry, deves estar cansado, é melhor eu ir andando.

            - Não. – disse Harry agarrando-lhe a mão – Elas têm razão, devíamos falar.

            Contudo nesse momento, Ron surgiu, vindo dos dormitórios dos rapazes.

            - Ah… – disse ele num tom amargo – és tu.

            - Ron, podes dar-me um pouco de privacidade?

            - Oh, claro! Eu dou privacidade à super-estrela. Já estou a ir…

            - Mas o que é que se passa contigo?

            - Harry… – disse Jennifer num tom firme – falamos noutra altura é melhor eu ir. – e, com isto, desapareceu pelas escadas em caracol.

            - Vai lá atrás da tua namoradinha – gozou Ron.

            - Ela ainda não é minha namorada.

            - Ainda? Ahaha!

            - Ron, sentes-te bem?!

            - Claro que sim super-estrela.

             - Pára de me chamar isso!

            - Porquê? É o que tu queres ser, não é?!

            - Claro que não! E tu sabes perfeitamente…

            - Pois, ‘tá bem. Mas podias ter dito ao teu melhor amigo?

            - Dito o quê?

            - Como é que tinhas conseguido pôr o teu nome no cálice. – respondeu Ron num tom magoado.

            - Mas eu não pus!

            - Pois, claro. Boa-noite, super-estrela. – respondeu-lhe Ron fechando a porta dos dormitórios na cara de Harry.

 

***

           

            Na manhã seguinte, quando acordou, Harry ainda teve esperança que os acontecimentos da noite anterior tivessem sido apenas um sonho, uma aluicinação, talvez se tivesse enganado. No entanto, a discussão do dia anterior tornou-se vívida quando olhou para a cama de Ron e a encontrou vazia, já devia ter descido para o pequeno-almoço, sem esperar por ele.

            Muito a custo, Harry levantou-se, sem vontade nenhuma de enfrentar a escola inteira e, muito menos, duas horas inteiras trancado numa masmorra fria com um monte de Slytherins hostis e Snape. Apenas a prespectiva de estar com Jenny e o facto de Snape parecer gostar bastante menos de Klair do que dele (coisa que não julgava ser possivel) lhe deu força para se levantar e se vestir em tempo útil.

            Enquanto descia as infindáveis escadarias até ao Salão, Harry concluiu que, afinal, até era capaz de ser uma boa ideia escrever a Sirius, ele ia gostar de saber o que se andava a passar no castelo, mas por outro lado, não queria estar a preocupá-lo, conhecendo o padrinho, ainda voltava para Londres.

           

- Então, o que acham? – perguntou ele ao pequeno-almoço.

            - Sobre o quê? – perguntou Klair com um ar estupefacto.

            Harry revirou os olhos, Klair podia estar constantemente atenta nas aulas mas cá fora nunca prestava atenção a nada.

            - Se acham que devia escrever uma carta ao Sirius.

            - Desculpa Harry, mas não consigo ultrapassar o facto de o teu padrinho se chamar Sirius.  – respondeu-lhe Klair solenemente – A sério, sou a única a achar estranho? Quer dizer, já viram os nomes das pessoas por aqui?

            - Eu acho que lhe devias escrever – disse Hermione, ignorando Klair – ele devia saber.

            - Não sabia que tinhas um padrinho – comentou Jennifer.

            - hmm, o quê? – Harry ficou bastante atrapalhado com a pergunta, já tinham passado meses desde que conhecera Jenny e nunca se lembrara de referir o facto de ter um padrinho fugitivo. – Pois, ele esteve preso durante muito tempo porque achavam que ele tinha morto umas dezenas de pessoas, mas não tinha sido o Sirius, tinha sido o rato do Ron, que era um animagus chamado Peter, que era um seguidor do Voldemort.

            - Realmente tens uma família fascinante – brincou Fred, que aparecera subitamente atrás de Harry – já devemos ter ouvido essa história um gazilião de vezes.

            - Sim, sim, nós sabemos que tens um padrinho homicida, escusas de nos esfregar isso na cara, mas pronto, como és campeão de Hogwarts, deixamos passar.  – zombou George. – Fred, estou aborrecido.

            - Eu também  - concordou o gémeo.

            - Queres ver uma coisa gira? – perguntou George a Fred.

            - Obviamente.

            - Baxtor! – chamou George, dirigindo-se a Sophie, que tinha acabado de entrar no Salão.

            - O que é que tu queres, tosco? – perguntou ela, mal-humorada.

            - Bom dia para ti também, queres um rebuçado?

            - Um rebuçado? – perguntou Sophie desconfiada olhando para o embrulho brilhante que George lhe oferecia – Será que finalmente aprendeste a ter boas maneiras? Pensava que não era possivel.         

- Tens tão pouca fé em mim, Sophie. Toma lá, não é um rebuçado que te vai matar.

- Desta vez, mas só desta vez, sem nenhuma hipotese de repetição, vou acreditar em ti. – disse Sophie.

George estendeu-lhe o embrulho roxo e Sophie engoliu-o de uma só vez com uma expressão de desafio. Quase imediatamente, Sophie começou a impalidecer e um grosso fio de sangue começou a escorrer-lhe do nariz, cinco segundos depois a sua cara estava completamente coberta de sangue.

- George Weasley! Vais morrer por isto! Podes ter a certeza! – berrou ela enquanto se começava a dirigir para a enfermaria.

- Espera! – gritou George – preciso que comas outro o rebuçado para ver se pára!

- Só se eu fosse estúpida! – guinchou Sophie, desaparecendo pela porta do Salão e deixando um rasto de sangue bastante artístico atrás de si.

- Em princípio a Madame Pomfrey consegue arranjar-lhe o nariz.  Mas também, se não conseguir, não há problema, ela esvai-se em sangue e pronto.

- Adeus crianças. – despediu-se Fred. – Já estamos atrasados. Ah, e parabéns outra vez, Harry! Mostra ao Cedric lindinho quem é que manda.

- Pois.. hmm, ‘tá bem obrigado – murmurou Harry olhando para o chão, a hemorragia de Sophie e a conversa casual tinham-no feito esquecer por completo os acontecimentos da noite passada.

- Se calhar também deviamos ir andando – sugeriu Hermione.

- Tem mesmo de ser? – perguntou Klair, relutante .

- Anda lá, são só duas horas, não doi nada – insistiu Jenny puxando Klair por um braço.

- Não és tu que estás de castigo quase todas as noites, pois não?! Ainda por cima anteontem foi dia de lua cheia e esqueci-me de limar a minha pena. Não ias achar nada agradável ver os teus pais presos dentro duma casa em chamas.

- Mas tu és super forte, Klair. Anda lá, não sejas mariquinhas.

- Um dia destes ainda te obrigo a beber poção polissuco e faço-te ir lá tu a ver se gostas…. – resmungou Klair baixinho, enquanto Jenny a puxava por um braço até às masmorras. 

            Enquanto desciam os degraus assimétricos e escuros das masmorras, Harry contou-lhes que, como Dumbledore já tinha dito no banquete, o Torneio dos Três Feiticeiros estava dividido em três tarefas e a primeira ia ser realizada no final de Novembro.

            - Hoje à tarde, depois de escreveres ao Siruis – Klair soltou uma curta gargalhada (agora a sério, sou a única que acha estranho? – perguntou ela estupefacta) – Devíamos começar a treinar uns feitiços mais simples de defesa – avisou Hermione enquanto se aproximavam da sala de poções.

            - Oh, Harry! – exclamou Kate assim que o viu – És campeão! Que fixe!

            - Pois é! Parabéns! – congratulou-o Hannah com um sorriso cativante. – vais mostrar a quem quer que seja que pôs o teu nome no cálice de que é que és feito!

            - Mas…hmm… vocês acreditam em mim? – perguntou ele estupefacto.

            - Ias mesmo pôr o teu nome no cálice… – ironizou Kate – Sinceramente, acho que já tens problemas que cheguem. Para além disso, a Sophie contou-nos a teoria que vocês as três arranjaram ontem e parece-me muito plausível – concluiu ela apontanto para Jennifer e Hermione. – O meu pai trabalha no ministério e ouviu que as coisas não andam bem. O desaparecimento da Bertha Jorkins, os intrusos na casa do Olho-Louco…

            -  Hey! Potter! – chamou a voz afectada de Draco Malfoy – Gostas? – perguntou ele exibindo um crachá roxo e brilhante que dizia: APOIEM CEDRIC DIGGORY.

            - Anda, Harry, ignora-o. – disse-lhe Hermiome puxando-o para o outro lado do corredor.

            - Mas fica melhor Potter, olha só – disse ele com um sorriso retorcido, ao pressionar o crachá este tornou-se verde e a mensagem mudou para: O POTTER CHEIRA MAL. Assim como o de todos os Slytherins à sua volta.

            Harry fez um movimento brusco em direcção a Draco mas, desta vez, foi Klair quem se pôs à sua frente.

             - Deixa estar Harry – disse ela num tom calmo – Eu trato disto.

            Apontou a varinha aos crachás brilhantes e, imediatamente, a mensagem mudou. Dizia agora, no mesmo tom esverdeado, O MEU PAI É UM TRASTE. Com um espressão de horror na cara Malfoy pressionou o crachá: a mensagem voltou a mudar, só que desta vez dizia EU SOU UM CHORAMINGAS.

            - Vais pagar por isto, Tullman. – ameaçou Draco num esgar.

            - Estou à espera.  – disse ela num tom de desafio.

            - Furnunculus! – gritou Malfoy.

            - Encarcerous! – pronunciou Klair no instante a seguir.

            Feixes luminosos sairam da ponta da varinha de cada um e tocaram-se no ar. Fizeram ricochete e saltaram de parede em parede até que o feitiço de Klair acertou nem cheio em Goyle, um dos “guarda-costas” de Draco, fazendo com que inúmeras cordas ásperas o envolvessem dos pés à cabeça. O feitiço de Draco acabou por acertar em Jenny que, com um grito, cobriu imediatamente a cara.

            - Jenny! Estás bem?! – perguntou Harry tentando afastar as mãos de Jenny para lhe ver a cara.

            - Deixa-me ver – pediu Klair – não pode estar assim tão mau. Levamos-te à enfermaria e ficas como nova – no entanto, só depois de algum tempo é que Jenny mostrou a cara: estava coberta de borbulhas vermelhas que pulsavam.

            - Uma vez fiz esse feitiço à Melinda Jones e esteve três semanas de cama até que a cara dela voltasse ao normal. – disse Kate olhando para Jennifer com curiosidade.

            - Não estás a ajudar! – choramingou Jenny, cobrindo outra vez a cara com as mãos.

            Entretanto, Malfoy tentava libertar Goyle das cordas que o envolviam, mas sem sucesso. Cada vez que conseguia soltar uma, aparecia logo outra para toma o seu lugar.

            - Liberta-o! – exigiu Draco, vermelho de raiva.

            - É que é já a seguir… – ironizou Klair. Ela tinha a perfeita consciencia de que aquilo a ia fazer ficar de castigo até ao resto do ano, mas a cara de Malfoy ao ver os crachás e a visão dele a debater-se com as cordas que envolviam o amigo compensava todos os castigos que fosse apanhar.

            - Posso saber a que se deve tanta agitação? – perguntou a voz fria de Snape, que acabara de surgir da sala de aula.

            - A Tullman amaldiçoo o Goyle! Olhe! – disse Draco apontando para Goyle que se debatia com as cordas no chão.

            - E o Malfoy amaldiçoo a Jenny! – protestou Klair afastando as mãos da prima muito a custo para mostrar as borbulhas que lhe cobriam a cara.

            - Não vejo qualquer diferença. – respondeu Snape com um sorriso malicioso.

            Jennifer rompeu em lágrimas e subiu as escadas das masmorras a correr até à enfermaria. Talvez por sorte, Kate e Klair começaram ao mesmo tempo a insultar Snape  de todas as maneiras que lhes ocorreram, no entanto, nem mesmo o eco produzido pelas paredes da masmorra conseguiram impedi-lo de ouvir o essencial.

            - Vejamos – começou ele calmamente quando elas finalmente acabaram– Menos 50 pontos para Ravenclaw e Hufflepuff e uma semana de castigo para as duas.

            - Mas eu já estou de castigo… – comentou Klair.

            - Já que fazes questão, Tullman, ficas o resto do mês. Agora, era melhor entrares senão ainda te mando expulsar.

            Klair entrou na sala escura muito a contragosto, apetecia-lhe partir o nariz a Snape ou até mesmo transformá-lo num sapo, sim, num sapo viscoso e depois esmagá-lo. Quando se sentou ao pé de Patrick ainda estava a fervilhar de raiva e os risos histéricos dos Slytherins não ajudavam nada.

            - Patrick – murmurou ela ao amigo – Esta noite praticamos legilimância. Quero extorquir-lhe todos os pedaços de informação humilhante que conseguir e mostrá-los a toda a escola.

            - Ok – respondeu ele num encolher de ombros – Mas não vai ser facil.

            - Isso sei eu. Mas, se calhar, usando o elemento de surpresa e…

            - Ouve, Klair, conseguires arrancar-lhe algum tipo de informação é tão provavel como começarem a chover ovos de dragão.

            - Então… mas… até foste tu que insististe…

            - Eu disse que era improvável, não impossivel. Só não quero que fiques com esperanças.

            - Não te preocupes com isso, eu consigo.

            - Se tu o dizes…

            - Está calado, rapaz. Eu sou um génio no que toca à arte da omissão.

            - Sim, e eu sou o Merlin.

            - TULLMAN! – gritou Snape. – A minha aula está a interromper a tua conversa?

            - Nem por isso – respondeu Klair.

            - Menos quinze pontos para Ravenclaw. Se te volto a apanhar distraída a tua equipa vai-se ressentir bastante.

            - Mas eu não estava distraída. Chama-se “multitasking”. – disse Klair mostrando uma folha de pergaminho coberta com diagramas e apontamentos.

            - Menos cinco pontos para Ravenclaw. Pensava que já tinha demonstrado que o teu exibicionismo idiota não era bem recebido na minha aula.

            - Juro-te, Patrick – sussurrou Klair quando Snape finalmente lhe voltou as costas – em Portugal não havia pessoas com esta atitude.

 

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