Intervalo
Julho 17, 2009
Decidimos tirar umas merecidas férias mas voltaremos dentro de pouco tempo. Os novos capítulos já estão a ser escritos e as nossas mentes fervilham com novas ideias.
Seria de esperar que 73 páginas de texto chegasse para entreter as massas durante mais tempo…
Pedimos desculpa pela interrupção, a FanFiction continuará dentro de momentos.
Capítulo XII: Rita Skeeter e a pesagem das varinhas
Abril 20, 2009
- Acabámos de presenciar a cena mais estranha que possam imaginar. – declarou Kate com entusiasmo quando ela e Klair chegaram ao Salão.
- Como assim? – perguntou Sophia, cujo nariz já tinha parado de sangrar.
Então, Klair e Kate contaram o tudo que tinham visto na sala de poções.
- Curioso – disse Hermione – no braço esquerdo, dizes tu?
- Sim – confirmou Kate.
- Não sei o que poderia estar Karkaroff a mostrar ao Snape. – concluiu Hermione.
- Os feiticeiros não fazem tatuagens, pois não? – perguntou Klair distraidamente.
- O quê? – perguntou Kelly confusa. – De que é que estás a falar?
- Tatuagens – repetiu Klair lentamente, como se Kelly fosse uma criança muito pequena – Às vezes os muggles fazem desenhos permanentes na pele com uma agulha.
Kelly fez um ar enjoado.
- Soa-me mediêval. – disse ela.
- Um bocado – admitiu Klair – Mas naquele sítio em específico, no antebraço, o mais provável é ser uma tatuagem.
- Então e “ele”? – perguntou Hannah – Quem é “ele”.
- Para inspirar aquele medo todo no Karkaroff só pode ser o Voldemort ou então um ex-namorado possessivo. – brincou Jenny – O que achas, Harry?
- Hmm? Sobre o quê? – perguntou Harry, distraído. Na verdade pouco ou nada lhe interessava o que Karkaroff tinha para mostrar ao Snape. Naquele momento tinha problemas maiores, Ron continuava a não lhe falar, tinha uma tarefa inacreditavelmente perigosa já ao virar da esquina, faltava-lhe entregar o trabalho de casa de Adivinhação e ainda não tinha escrito a Sirius. – Tens aí uma pena e um bocado de pergaminho que me emprestes? – perguntou Harry a Jenny, tomando a decisão de escrever ao padrinho imediatamente.
- Claro… – respondeu ela estendendo-lhe a sua pena e um pedaço de pergaminho rasgado.
Harry rabiscou algumas frases no pergaminho e, quando acabou, releu-as. Não queria dar demasiada importância ao facto de o seu nome ter saído no Cálice de Fogo, não queria que Sirius ficasse excessivamente preocupado, podia fazer alguma coisa realmente parva como voltar para o país. Harry arrependeu-se também de ter escrito a Sirius no verão a contar-lhe sobre o sonho perturbador que tinha tido e a dor que tinha sentido na cicatriz. Não devia chatear o padrinho com coisas tão insignificantes. Leu novamente a carta antes de subir até à torre das corujas, tentando evitar o olhar curioso de Jenny.
“Sirius,
Espero que esteja tudo bem contigo e com o Buckbeak, provavelmente a esta altura já sabes que o meu nome saiu do cálice de fogo. Juro-te que não o pus lá. De qualquer maneira, não estou muito preocupado com isso (Harry engoliu em seco, não era costume mentir assim ao padrinho) mas as coisas não me andam a correr muito bem e precisava de desabafar. O Ron não me fala, a rapariga de que gosto não parece muito interessada em mim e parece que quase toda a escola se virou contra mim.
PS: Não é preciso voltares ou ficares demasiado preocupado, nunca mais tive sonhos estranhos e provavelmente imaginei a dor na minha cicatriz.”
- Bem – disse Harry – Vou só mandar esta carta ao Sirius e depois vou ter com vocês à sala de Defesa Contra as Artes das Trevas.
- ‘k – concordou Jenny. – Até já.
- Uhhh – gozou Kate sentando-se entre Klair e Jenny – O Harry é muito simpático não é, Jenny?
- Estás a falar de quê? – perguntou Jennifer, sem dar demasiada importância à pergunta.
- Presumo que esteja a falar da conduta demasiado amigável que tens quando estás com Harry. – esclareceu Klair distraidamente.
- Não sejam parvas! – protestou Jennifer, já a começar a ficar chateada. – É melhor irmos andando antes que vocês comecem a fazer mais afirmações disparatadas.
- Afirmações disparatadas?! – exclamou Klair, indignada – Só faltava babares-te para cima do Harry!
- Pois e eu sou um texugo – disse Jennifer levantando-se e dirigindo-se para a escadaria principal.
Klair e Kate ficaram a observá-la enquanto ela subia as escadas durante um bocado.
- Realmente, até consigo ver as semelhanças – disse Kate rindo-se.
- Vá, anda lá, vamos aturar o Moody.
Kate e Klair seguiram Jennifer assim como Kelly e Hermione. Subiram as escadarias até ao quinto andar. Havia um grande grupo de alunos tinha-se juntado à porta da sala, Harry já lá estava assim como Jenny. Estavam tão entretidos a conversar que não deram pela chegada das amigas.
- São ton querridôs – comentou Kelly – Fazem um casal muitô bonito.
Klair simulou um ataque de vómito debruçando-se atrás de uma armadura.
-Não te sentes bem, cabeça de esfregão? – perguntou Moody com o olho azul eléctrico a rodopiar de uma forma sinistra.
- N… Não, estou bem – gaguejou Klair
- Ainda bem – respondeu ele num grunhido. O barulho emitido pela perna de madeira do professor ecoou nas paredes de pedra, sentou-se numa cadeira que estava no fundo da sala e tirou a perna postiça, expondo a parte superior do membro mutilado. – Então? – perguntou ele perante as caras enojadas dos alunos que tinham ficado à porta da sala – Não tencionam entrar?
Aos poucos, os alunos começaram a entrar e a sentar-se nos respectivos lugares.
- Muito bem! – começou Moody bem disposto – Hoje vamos estudar a maldição Imperius.
Kelly, Jenny e Sophie trocaram olhares. Tinham estado as últimas semanas a estudar as maldições imperdoáveis e sinceramente, elas já estavam a ficar fartas. Klair rapidamente lhes “tomou o gosto” e passou a gostar da matéria mas, para elas, cada aula era pior que a anterior.
- Hoje, vamos fazer uma coisa diferente – anunciou Moody massajando o joelho. Voltou a colocar a prótese na perna e com um gesto da varinha afastou as mesas e as cadeiras vazias para um canto da sala. – Vou lançar-vos a maldição Imperius e vocês vão tentar resistir.
Toda a gente olhou para Moody com um olhar de descrença.
- Oh vá lá. Não sejam tímidos. – disse ele com o olho azul a saltar de excitação – Quem é que quer ir primeiro?
Olharam todos uns para os outros, ninguém parecia particularmente interessado em ser enfeitiçado pelo velho professor.
- P… posso ser eu… – ofereceu-se Patrick.
- Não esperava outra coisa de ti… – disse Moody, a sua boca deformada formou o que parecia ser um sorriso.
Moody enfeitiçou Patrick e ordenou que ele fizesse uma grande quantidade de exercícios de ginástica inacreditavelmente complexos. Patrick fixou o vazio com os olhos desfocados durante algum tempo, parecia estar a pensar se devia obedecer a Moody. Tinha um sorriso parvo na cara muito incaracterístico. Depois, fez uma coisa curiosa, fez algo entre saltar e ficar no mesmo sítio o que resultou numa violenta queda. Patrick retomou rapidamente ao seu estado sério e levantou-se rapidamente com uma expressão ligeiramente orgulhosa.
- Viste aquilo? – perguntou ele a Klair quando se voltou a sentar ao pé dela. – Eu resisti!
- Sim, Patrick, és um génio. – gozou Klair.
- Suponho que vás fazer melhor que eu.
- Supões bem.
- Então vai lá. Estou mesmo a precisar de uma boa gargalhada. De certeza que o Moody te vai obrigar a fazer alguma coisa interessante.
- Bah, provavelmente só me obriga a pentear o cabelo. Coisa que não tenciono fazer! – disse Klair perante o olhar de gozo de Patrick.
- Simpson! – chamou Moody – Anda cá.
Kate olhou em pânico à sua volta. Moody por si só já lhe metia medo quanto mais armado com uma super-maldição-maluca-controladora-de-mentes…
- Posso ir eu primeiro? – perguntou Klair. Kate ficou logo com um ar mais aliviado.
- Suponho que sim… – resmungou Moody.
Klair levantou-se do seu lugar com um sorriso sarcástico e parou à frente do professor.
- Pronta?
- Yup. – respondeu ela. Klair pensou que talvez se conseguisse resistir àquela maldição como se resistia a Legilimância, Patrick já não conseguia ver nenhuma das suas memórias, talvez também se saísse naquela lição bizarra. Fixou um livro com uma capa preta que estava arrumado numa prateleira e “esvaziou” a mente, pensou em rigorosamente…nada.
- Imperio! – exclamou Moody.
Klair sentiu-se, de imediato, muito leve e sem preocupações. Estava feliz. Tudo à sua volta parecia estranhamente desfocado mas, sinceramente, não se importava. Deixou-se levar pela torrente de pensamentos desconexos e felizes que a assaltavam. No entanto, pouco depois, ouviu a voz de Moody.
- Corre – disse-lhe ele.
O primeiro impulso de Klair foi obedecer mas depois de algum tempo de reflexão (sentia o cérebro dormente) pareceu-lhe uma ideia estúpida.
- Não me parece – respondeu ela.
- Corre, já!
- NÃO!
De repente, ficou tudo novamente nítido e Klair estava, por alguma razão que lhe escapava por completo, sentada no chão.
- Quem é o próximo? Parece que hoje só me calham espertalhões… – murmurou Moody.
A próximo hora foi entre simplesmente sinistra e ligeiramente engraçada. Moody enfeitiçou toda a gente, pôs Jenny a cantar, Kelly fez um discurso muito longo em holandês que ninguém percebeu e Hannah dançou particularmente bem. Contudo, a melhor espectáculo foi dado, sem sombra de dúvida, por Malfoy, que imitou de forma incrivelmente realista uma galinha. Apenas Sophie conseguiu escapar-se escondendo-se no fundo da sala.
- Ah, parece que é a tua vez, Potter… – disse Moody olhando para Harry como se tivesse guardado o melhor para o fim.
Harry olhou em volta, já toda a gente tinha sido enfeitiçada, excepto ele (e Sophie, mas ela estava dentro de um armário por isso não contava). Já estava parado à frente do professor quando alguém bateu à porta.
- Sim?… – perguntou Moody, mal-humorado.
Colin Creevey, um rapaz muito pequeno do 3º ano entrou na sala com um ar muito nervoso.
- Uhm… O Harry precisa de ir tirar umas fotos… para o Profeta Diário. Estão à espera dele… – disse Colin.
- O Harry ainda tem mais meia hora de aula – disse Moody friamente.
- M…mas precisam dele agora…
- Pronto! Está bem!
Harry pegou nas suas coisas, extremamente aliviado, e seguiu Colin.
- Ainda bem que és campeão – disse Colin entusiasmado – Vais ganhar tudo de certeza.
- Pois, er… obrigada Colin. – agradeceu Harry enquanto caminhavam pelos corredores estreitos. Colin até era bom rapaz, mas o seu entusiasmo excessivo podia ser muito irritante. Agora que Harry pensava nisso, ele fazia-o lembrar um esquilo hiperactivo.
- Bem, é aqui – anunciou Colin ao chegarem à porta de uma sala algures no 2º andar. – Boa-sorte!
- Obrigado…?
Harry empurrou a porta de madeira e entrou na sala. Nem teve tempo para ver os restantes campeões. Ludo Bagman, o director do Departamento dos Desportos Mágicos, que, à semelhança de Colin, demonstrava interesse em todos os assuntos remotamente relacionados com Harry , cortou-lhe logo a passagem e apertou-lhe a mão efusivamente.
- Que bom ver-te! Como estás, Harry? – perguntou ele.
- Estou bem…
- Óptimo…óptimo! Entusiasmado?
- Se não se importar, gostaríamos de começar – disse Barty Crouch.
- Oh, claro. Com certeza. Presumo que a pesagem das varinhas seja primeiro?
- Sim – respondeu Crouch. Tinha um aspecto mais cansado e doente do que da primeira vez que Harry o vira, no banquete de inicio de ano. Por baixo dos seus olhos tinham-se instalado olheiras muito profundas e a sua pele era de uma tonalidade cinzenta.
- Então, vamos lá, vamos lá ver essas varinhas! – exclamou um homenzinho bastante pequeno e velho que Harry reconheceu como sendo Ollivander, o homem que lhe vendera a sua varinha. Estava lá para verificar se as varinhas dos concorrentes estavam em condições de competir.
Cedric foi o primeiro, mostrou a sua varinha a Ollivander que, por sua vez fez aparecer um bonito ramo de flores e declarou que esta se encontrava em perfeitas condições.
- Ah! – disse Ollivander ao examinar a varinha de Krum – Presumo que esta seja do Gregorovitch.
- Zim… – respondeu Krum com o habitual tom mal-humorado.
- Não é bem o meu estilo, mas não deixa de ser uma excelente varinha, sempre as achei um bocado… – Ollivander deixou cair a varinha de Krum que, ao embater no chão, fez explodir um armário a alguns metros de distância – …rudes. Bem…hmm, parece estar em boas condições. – disse ele voltando a entregar a varinha a Krum.
A seguir a Fleur foi a vez de Harry mostrar a sua varinha a Ollivander.
- Ahh – disse ele com entusiasmo – Lembro-me muito bem desta…
Harry revirou os olhos, não lhe apetecia nada que o Ollivander comentasse ali, à frente de todos, o facto de a varinha dele ter exactamente o mesmo núcleo que a de Voldemort.
- É mesmo curioso que estava varinha estivesse destinada a si, Sr. Potter…
- Sim, sim realmente fascinante – comentou uma mulher de cabelos muito louros, unhas pintadas de cor-de-rosa choque, um casaco verde lima e uma expressão na cara que Harry conhecia bastante bem, embora não soubesse de onde. – Eu gostava de entrevistar o rapaz ainda hoje, se não se importar. Despache-se lá com isso.
Ollivander fez uma careta e fez jorrar da ponta da varinha de Harry uma quantidade considerável de vinho, entregando-lha de seguida. A mulher puxou imediatamente Harry para dentro de outra sala mais pequena.
- Olá! – disse ela, puxando duas cadeiras e obrigando Harry a sentar-se numa delas – Sou a Rita Skeeter, do Profeta Diário. Importas-te que eu use uma pena de notas rápidas?
- Não…?
- Óptimo! – disse ela tirando da sua mala roxa uma pena verde lima que condizia perfeitamente com o casaco e um grande rolo de pergaminho. – Então diz-me, o que te levou a inscreveres-te no Torneio?
- Eu não me inscrevi! – explicou Harry.
- Claro que não – respondeu ela, piscando-lhe o olho enquanto a pena escrevia a uma velocidade alucinante. – Diz-me, ainda pensas muito nos teus pais?
- Nem por isso – mentiu Harry.
- Ah, pois… compreendo. As memórias são muito dolorosas?
- Não sei se sabe, mas ele morreram quando eu tinha um ano. Não me lembro de nada. Hey! – exclamou Harry depois de ler o que a pena tinha estado a escrever - A simples lembrança da morte trágica e precoce dos meus pais não me está a deixar com os olhos verdes mergulhados em lágrimas de dor!
- Claro que não, querido – respondeu Rita com um sorriso retorcido. – E raparigas? Há alguma que ocupe um lugar especial no teu coração. Para além da tua falecida mãe, claro…
- Bem… sim, há uma… – respondeu Harry sem fazer a mínima das intenções de revelar o seu nome àquela jornalista completamente demente.
- Presumo que essa rapariga tenha um nome… – os olhos de Rita Skeeter brilhavam de expectativa. – O mundo da feitiçaria está em pulgas para saber!
Antes que Harry se visse obrigado a revelar ao mundo da feitiçaria os seus sentimentos em relação a Jenny, Dumbledore entrou na sala.
- Creio que já chega – disse ele – Tenho a certeza que já tem informações suficientes para escrever um artigo completamente falso e cheio de mentiras.
Rita sorriu ironicamente a Dumbledore e saiu da sala.
- É melhor teres cuidado com ela – avisou ele com um sorriso – É um bocado manhosa.
- Pois, já tinha percebido – respondeu Harry.
Harry saiu com Dumbledore e apressou-se a juntar-se aos outros campeões.
Capítulo XI: Segredos
Março 27, 2009
Quando finalmente saíram da aula de poções, Klair, Patrick, Kate, Harry, Hannah e Hermione foram visitar Jenny à enfermaria. Tinha a cara coberta com uma espécie de pasta amarelada e tinha um ar sinceramente infeliz.
- Aula interessante? – perguntou ela mal-humorada.
- Imensamente – respondeu Kelly – Aquele Dracô às vezes consegue serr muito desagrradável.
- Às vezes? – perguntou Harry sarcasticamente – Ele é sempre assim.
- Oh nee! Ele pode serr muito simpaticô se quiser.
- Pois, ‘tá bem, mas não viemos aqui para falar do Malfoy. Porque, com todo o respeito Kelly, ele pode ir morrer longe. – interrompeu Klair, aborrecida – Por causa daquele idiota estou mais um mês de castigo.
- Ao menos não tens pus a sair-te da cara… – lamentou-se Jenny – A sério, o Snape anda particularmente cruel. Já no outro dia ia fazendo o Neville chorar, o pobre do rapaz trocou pó de corno de bicórnio com garra de dragão moída. Só podem calcular como o Snape ficou, deve-lhe ter tirado uns 25 pontos. Aquela tosca da Helena pode fazer explodir os caldeirões que quiser que está tudo bem.
- Moody… – disse Harry, como se tivesse tido uma revelação.
- Gezondheid! – exclamou Kelly – Quê foi? – perguntou ela olhando para o ar estupefacto dos amigos. – Pensei que… oh esqueçam!
- Nunca pensei vir a dizer isto mas acho que ele assusta o Snape. – esclareceu Harry – O Moody já foi um auror…
- Sim, sim, fascinante – interrompeu Hannah – Por muito giras que sejam as vossas teorias eu tenho aulas agora e não quero chegar atrasada. Vemo-nos à hora de almoço.
Ficaram todos a ver Hannah a sair, abanando a sua espessa cabeleira preta, até que Klair falou.
- Já não temos mais aulas esta manhã, pois não? – perguntou ela dirigindo-se a Patrick.
- Não. – respondeu ele.
- Nem nós – afirmou Hermione.
- Nós também não – disse Kate.
Klair coçou a cabeça, confusa. Eles eram todos da mesma turma, tinham todos aulas às mesmas horas, excepto às terças e quintas (cada equipa tinha duas ou três aulas suplementares em que não se misturavam com outras equipas), e hoje era segunda.
- Então… mas ela não ia com vocês para a sala comum? – perguntou Klair apontando para Jenny, Harry e Hermione.
- Não… pensei que ela fosse com elas – respondeu Jenny apontando para Kate e Kelly.
- Mas nós sempre achámos que ela era uma Ravenclaw. – retorquiu Kate encolhendo os ombros.
- Mas se ela não é uma Huflepuff, nem uma Ravenclaw, nem uma Gryffindor… – começou Harry.
- Quer dizer que ela só pode ser uma Slytherin! – completou Kate. – Mas, e então e o brasão no pulôver dela? Não era uma serpente, pois não? Como é que ela pode ser um Slytherin?
- Era o brasão de Hogwarts – esclareceu Jenny – Parecia ter sido cozido à mão.
Olharam todos uns para os outros. Hannah nunca tinha dito que era uma Slytherin mas era verdade que nunca lhe tinham perguntado. Não era costume os Gryffindores darem-se bem com Slytherins mas, na verdade, se eles continuassem amigos, não seria inédito. Mas seria Hannah de confiança? Talvez só andasse com eles por interesse, para poder contar todas as conversas que tinham à Helena. Porque se tinha dado ao trabalho de esconder a que equipa pertencia?
Entretanto, na sala comum dos Slytherins, Hannah Ivanov pontapeava com toda a sua força uma parede.
-“ Que estúpida, estúpida estúpida estúpida estúpida… – pensava ela incessantemente – “ Estraguei tudo! Eles nunca mais me vão querer falar…oh… e se eles dizem ao Cedric? O mais provável é ele me deixar, ele não vai querer namorar com uma Slytherin e eles não vão querer andar mais comigo, vão-me odiar”.
Hannah pontapeou a parede com mais força. A verdade é que nunca se sentira muito à vontade naquela equipa pois os Slytherins eram pessoas horríveis e também nunca gostaram muito dela. Quando foi seleccionada, o chapéu seleccionador não demorou assim muito tempo a decidir, dez segundos depois de ter sido colocado na sua cabeça já estava a gritar Slytherin. Hannah ficara desolada, não fazia sentido. Ela vinha de uma família de Ravenclaws. O seu pai nascera na Albânia mas vivera a maior parte da sua vida em Londres, onde andou em Hogwarts e conheceu a mãe de Hannah, também uma Ravenclaw. Só voltava à terra natal nas férias, para visitar a família.
Hannah olhou para o chão de pedra escura e decidiu contar a Cedric, antes que ele descobrisse por outra pessoa. Sentia-se como se tivesse algo podre dentro de si, como uma doença. Andou pelos corredores e desceu inúmeros lanços de escadas até chegar à cave, à sala comum dos Huflepuff.
- Olá Hannah! – cumprimentou-a Gretta, uma rapariga com longas tranças louras – Estás à procura do Cedric? Acho que ela está na biblioteca.
- Ah… ok, obrigada. – agradeceu Hannah tristemente.
- Está tudo bem? – perguntou Gretta com um ar preocupado.
- Oh, sim. Claro – respondeu Hannah forçando um sorriso.
- Hmm, ok. Mas se calhar devias ir à enfermaria, não estás com muito bom aspecto.
- Estou óptima, a sério. Vá, adeus.
Hannah arrastou-se até à biblioteca, a simpatia de Gretta estava a fazê-la sentir-se culpada. Foi encontrar Cedric a fazer os trabalhos de casa com um grupo de amigos. Assim que a viu, levantou-se e deu-lhe um beijo.
- Cedric – disse ela afastando-o – Preciso de falar contigo.
- Sobre o quê? – perguntou ele, sacudindo o cabelo castanho claro.
- Bem… sobre… – Hannah hesitou. Céus, como ele era irresistível. Era tão mais fácil dizer-lhe aquilo se ele dissesse alguma coisa incrivelmente insensível ou desagradável. Mas não, ali estava ele, prefeito como sempre. Hannah respirou fundo, fechou os olhos e decidiu despachar já aquilo – eusouumaslyhterin.
- O quê? – perguntou Cedric sorrindo, exibindo os seus dentes brancos e completamente alinhados. – Fala mais devagar.
- Eu sou uma Slytherin…
Hannah ficou à espera que ele dissesse que já não queria andar com ela mas em vez disso ele afastou-lhe o cabelo da cara de disse-lhe ao ouvido:
- Eu já sabia.
- Hm?! O quê?! Como?
- A Heather disse-me, ela ouviu o Goyle dizer a não sei quem que era uma vergonha ter-te na equipa. Mas não te preocupes, eu pedi-lhe para não dizer a ninguém, conheço a Heather desde os 6 anos e ela não é nada desbocada.
- Mas.. então… porque é que não me disseste nada?!
- Porque fizeste um trabalho excelente a esconder esse facto (quer dizer… somos amigos desde o teu 2º ano e nunca suspeitei de nada). Achei que ias ficar toda constrangida quando descobrisses que eu sabia por isso não te disse nada.
Hannah olhou Cedric nos olhos. Ele era, muito provavelmente, a melhor coisa que lhe tinha acontecido. Abraçou-o com força e começou a soluçar.
- Elas descobriram! – disse ela – confundi os horários e disse-lhes que tinha aulas agora.
- Achas mesmo que elas se vão importar? – perguntou-lhe Cedric limpando-lhe as lágrimas – Tu não és como os outros Slytherins,. Vai falar com elas, vais ver que elas ainda são tuas amigas.
- Obrigada, Cedric. – agradeceu Hannah, sorrindo. – Era mesmo isso que eu precisava de ouvir.
Beijou Cedric e saiu da biblioteca, sentindo-se mais aliviada. Encontrou os amigos à porta da enfermaria, a cara de Jenny ainda apresentava algumas borbulhas mas eram visivelmente mais pequenas e já não pulsavam de forma sinistra.
- Olá! – cumprimentou-os Hannah – Ora..hmm, presumo que já sabem que eu sou uma Slytherin…
- Presumes bem – respondeu Klair sarcasticamente. – Achaste mesmo que não nos podias contar?
- Pois, eu peço desculpa. Eu achei que se soubessem não iam querer andar comigo.
- Porque é que haveríamos de fazer uma coisa dessas? – perguntou Kate estupefacta – Continuamos a falar à Kelly e ela gosta do Malfoy.
- Hey! – protestou Kelly – Eu não gosto dele!
- Pois e eu sou um hipogrifo bêbado - comentou Kate.
- De qualquer maneira… – interrompeu Patrick – nós só ficamos um bocado desconfiados por não nos teres contado. Se nos tivesses contado logo não nos importaríamos mas assim até parecia que andavas a fornecer informações secretas à Helena ou coisa do género.
- Credo! Claro que não! Só não vos disse nada porque tenho um bocado de vergonha de ser Slytherin. Tenho a certeza que o chapéu seleccionador se enganou…
- Não é possível – disse Klair imediatamente – Artefactos poeirentos nunca falham. Alguém da tua família devia ser um Slytherin, às vezes é hereditário.
- Não, ninguém da minha família eram Slytherin. Para além de ter “sangue puro”, não percebo porque é estou nesta maldita equipa. – queixou-se Hannah.
- Então não sei – disse Klair encolhendo os ombros – Se calhar apanhaste o chapéu seleccionador de mau humor.
Hannah riu-se.
- Pois, é capaz. Vá, vamos almoçar e dizer mal do Snape.
- Assim já falamos! – disse Kate, sorrindo – Só espero não ter que usar aquele pergaminho nojento.
- Por falar nisso – disse Klair apalpando os bolsos e vasculhando no interior da mala – acho que deixei a minha adaga de prata na sala de poções. Muito bem, quem é o sortudo que se oferece para a ir buscar por mim?
Olharam todos uns para os outros. Apetecia-lhes tanto voltar à sala de poções como arrancar um dente com um alicate ferrugento.
- Patrick? – perguntou Klair – Vais lá por mim? Sim? Se faz favor? Vá lá…?
- Sabes Klair, eu…hmm… sou hipoglicémico, se não for almoçar já, posso morrer. Não queres que eu morra, pois não? Ia ser muito aborrecido.
- Está bem! Eu vou sozinha! Mas se eu não voltar dentro de meia hora mandem alguém ir buscar o meu corpo.
- Pronto! – cedeu Kate – Eu vou contigo!
- Obrigada Kate. Vocês deviam ter todos vergonha! – disse Klair com um tom de voz falsamente ofendido.
- Eu e o Fred já arranjámos alcatrão suficiente para cobrir o Filch. – anunciou Kate enquanto ela e Klair viram as costas aos amigos e desciam as escadas em direcção às masmorras.
- Boa!… – disse Klair distraída.
- Achas que também vou ter que usar aquele pergaminho? – insistiu Kate, ligeiramente preocupada.
- Sinceramente não sei, mas duvido. – respondeu Klair, enquanto passavam por uma armadura que lhes tentava acertar com a sua lança. – É aqui – disse Klair puxando Kate para uma sala ao fundo do corredor principal das masmorras.
A pesada porta de madeira estava aberta, Klair bateu levemente mas ninguém respondeu.
- Com sorte ele não está cá – disse Klair esperançosa.
- Anda lá! – disse Kate, empurrando Klair para dentro da sala.
Felizmente, estava completamente vazia. A adaga de Klair brilhava em cima de uma mesa, no fundo da sala.
- Sabes – começou Klair ligeiramente orgulhosa – hoje a minha poção dos mortos estava tão prefeita que o Snape não conseguiu dizer nada mal.
- Fascinante… – comentou Kate – despacha-te lá!
- Mas é que foi mesmo engraçado, ficou ali a olhar para a poção à espera de encontrar alguma coisa de errado, mas não conseguiu.
- Shiu! – disse Kate repentinamente.
- Pronto, está bem. Já percebi, queres que eu me cale com as poções.
- Não é isso! Acho que ouvi passos.
Klair calou-se e pôs-se à escuta. Kate tinha razão, vinha aí alguém. Aliás, pareciam ser duas pessoas a discutir e quase de certeza que se estavam a dirigir para ali. Klair pegou no braço de Kate e esconderam-se atrás de uma mesa.
- Ele vai voltar – disse a voz de Karkaroff num tom de alarme.
- Já te avisei para estares calado – desta vez foi a voz gelada de Snape, que ecoou nas paredes das masmorras.
- Está a ficar mais nítida… – insistiu Karkaroff arregaçando a manga esquerda.
Klair tentou ver o que ele estava a mostrar a Snape mas, infelizmente, uma das pernas da mesa estava a bloquear-lhe a vista para a sala.
- Compreendo a tua preocupação, Karkaroff – rosnou Snape – mas se te sentes compelido a abandonar o país então fá-lo. Sê um cobarde à vontade.
Klair observou Snape percorrer a sala com impaciência e, de repente, o fascínio inicial que sentia por ele voltou. Klair abanou a cabeça com força. Não! Ela odiava-o, ou pelo menos tentava. Desde a primeira aula de poções que Klair tentava reprimir o que sentia por Snape, mas sem sucesso. Não conseguira obrigar-se a odiá-lo. Nunca conseguira deixar de ficar feliz quando ele não conseguia encontrar nada de errado para dizer sobre as poções dela, nunca conseguira evitar achá-lo inacreditavelmente interessante e ,por muito que dissesse a si própria que só queria aprender Legilimância por vingança, isso nunca se tornaria verdade.
- Klair – sussurrou Kate – estás bem?
Klair demorou um bocado a perceber que Kate estava a falar com ela. Abanou a cabeça e voltou à realidade.
- Claro que sim – respondeu ela.
- Acho que já se foram embora. – afirmou Kate olhando por cima da secretária.
Klair levantou-se e sacudiu a terra do uniforme.
- Mas que conversa era aquela? – perguntou Kate.
- Não faço a mínima ideia – confessou Klair – Mas tenciono descobrir.
Capítulo X: O quarto campeão
Março 8, 2009
Naquela noite, quando Harry subiu as escadas até aos dormitórios dos Gryffindor, tudo lhe parecia irreal. Sentia-se mais confuso do que julgava ser possível. Agora toda a escola devia achar que ele era um batoteiro e que tinha encontrado maneira de se inscrever no torneio. Não era que ele não estivesse habituado a ser olhado de lado nem a ser insultado mas, quando conheceu Jennifer, começou a ter esperança que este ano fosse completa e inteiramente normal e talvez, muito hipoteticamente, despreocupado, divertido e sem acontecimentos bizarros.
- Balderdash… – disse ele à dama gorda algo a medo. Como iriam os seus colegas de equipa reagir? Mas, mais importante ainda, como iria Jenny reagir? Iria ela acreditar nele?
- Se tu o dizes – respondeu o retrato expondo uma passagem para a sala comum dos Gryffindor.
Harry pensou que os seus tímpanos iam explodir: assim que entrou na sala foi recebido por uma imensidão de aplausos e gritos.
- Harry! – gritaram os gémeos Weasley puxando-o para dentro da sala e pondo-lhe nas mãos uma garrafa de cerveja de manteiga – Como é que fizeste aquilo?! Como é que puseste o teu nome no cálice?!
- Eu…eu…não pus! – tentou explicar-se Harry.
- Pois, ‘tá bem e eu sou um caranguejo de fogo bêbado! Também, deixa lá. Anda festejar com o pessoal!
- Não, a sério. Já é tarde, estou muito cansado – disse Harry. Só queria encontrar a Jenny, a Hermione, o Ron… ou alguém que acreditasse nele.
Só algum tempo depois é que Harry se conseguiu desembaraçar dos gémeos e de toda a gente que teimava em puxá-lo cada vez que ele se aproximava dos dormitórios. Finalmente, por volta da uma da manhã, conseguiu evadir-se, dizendo que voltava logo a seguir a escrever uma carta a Sirius, o seu padrinho, a contar-lhe o sucedido.
Quando estava a subir as escadas que davam para os dormitórios deparou-se com Jennifer, Hermione e Sophie sentadas num degrau a conversar.
- Olá! – cumprimentou-o Jenny com um sorriso. – Estás bem?
- Sim…bem… – começou ele.
- Estávamos aqui a tentar descobrir quem pôs o teu nome no cálice. – interrompeu-o Sophie num tom energético.
- Vocês acreditam em mim? – perguntou Harry, incrédulo.
- Oh, claro que não – ironizou Hermione – nós achamos mesmo que tu arranjaste uma maneira super elaborada de te inscreveres no torneio para te, muito provavelmente, humilhares em frente a toda a escola.
- Obrigada pelo apoio… – resmungou Harry.
- Bem quer dizer… não era bem isso que eu estava a insinuar – Hermione tinha adoptado agora uma cor escarlate – De certeza que te vais sair bem.
- Bem, Hermione – disse Sohpie – acho que devíamos ir andando, não achas?
- Ah, sim, claro. Só te queríamos dar os parabéns, longe da confusão. – Concordou Jenny.
- Sabes Jenny – disse Hermione – se calhar devias ficar, tu e o Harry deviam falar um bocado.
- Mas…! – protestou Jennifer em vão pois Hermione e Sophie tinham descido as escadas a uma velocidade alucinante e já se encontravam longe da sua vista.
- Harry, deves estar cansado, é melhor eu ir andando.
- Não. – disse Harry agarrando-lhe a mão – Elas têm razão, devíamos falar.
Contudo nesse momento, Ron surgiu, vindo dos dormitórios dos rapazes.
- Ah… – disse ele num tom amargo – és tu.
- Ron, podes dar-me um pouco de privacidade?
- Oh, claro! Eu dou privacidade à super-estrela. Já estou a ir…
- Mas o que é que se passa contigo?
- Harry… – disse Jennifer num tom firme – falamos noutra altura é melhor eu ir. – e, com isto, desapareceu pelas escadas em caracol.
- Vai lá atrás da tua namoradinha – gozou Ron.
- Ela ainda não é minha namorada.
- Ainda? Ahaha!
- Ron, sentes-te bem?!
- Claro que sim super-estrela.
- Pára de me chamar isso!
- Porquê? É o que tu queres ser, não é?!
- Claro que não! E tu sabes perfeitamente…
- Pois, ‘tá bem. Mas podias ter dito ao teu melhor amigo?
- Dito o quê?
- Como é que tinhas conseguido pôr o teu nome no cálice. – respondeu Ron num tom magoado.
- Mas eu não pus!
- Pois, claro. Boa-noite, super-estrela. – respondeu-lhe Ron fechando a porta dos dormitórios na cara de Harry.
***
Na manhã seguinte, quando acordou, Harry ainda teve esperança que os acontecimentos da noite anterior tivessem sido apenas um sonho, uma aluicinação, talvez se tivesse enganado. No entanto, a discussão do dia anterior tornou-se vívida quando olhou para a cama de Ron e a encontrou vazia, já devia ter descido para o pequeno-almoço, sem esperar por ele.
Muito a custo, Harry levantou-se, sem vontade nenhuma de enfrentar a escola inteira e, muito menos, duas horas inteiras trancado numa masmorra fria com um monte de Slytherins hostis e Snape. Apenas a prespectiva de estar com Jenny e o facto de Snape parecer gostar bastante menos de Klair do que dele (coisa que não julgava ser possivel) lhe deu força para se levantar e se vestir em tempo útil.
Enquanto descia as infindáveis escadarias até ao Salão, Harry concluiu que, afinal, até era capaz de ser uma boa ideia escrever a Sirius, ele ia gostar de saber o que se andava a passar no castelo, mas por outro lado, não queria estar a preocupá-lo, conhecendo o padrinho, ainda voltava para Londres.
- Então, o que acham? – perguntou ele ao pequeno-almoço.
- Sobre o quê? – perguntou Klair com um ar estupefacto.
Harry revirou os olhos, Klair podia estar constantemente atenta nas aulas mas cá fora nunca prestava atenção a nada.
- Se acham que devia escrever uma carta ao Sirius.
- Desculpa Harry, mas não consigo ultrapassar o facto de o teu padrinho se chamar Sirius. – respondeu-lhe Klair solenemente – A sério, sou a única a achar estranho? Quer dizer, já viram os nomes das pessoas por aqui?
- Eu acho que lhe devias escrever – disse Hermione, ignorando Klair – ele devia saber.
- Não sabia que tinhas um padrinho – comentou Jennifer.
- hmm, o quê? – Harry ficou bastante atrapalhado com a pergunta, já tinham passado meses desde que conhecera Jenny e nunca se lembrara de referir o facto de ter um padrinho fugitivo. – Pois, ele esteve preso durante muito tempo porque achavam que ele tinha morto umas dezenas de pessoas, mas não tinha sido o Sirius, tinha sido o rato do Ron, que era um animagus chamado Peter, que era um seguidor do Voldemort.
- Realmente tens uma família fascinante – brincou Fred, que aparecera subitamente atrás de Harry – já devemos ter ouvido essa história um gazilião de vezes.
- Sim, sim, nós sabemos que tens um padrinho homicida, escusas de nos esfregar isso na cara, mas pronto, como és campeão de Hogwarts, deixamos passar. – zombou George. – Fred, estou aborrecido.
- Eu também - concordou o gémeo.
- Queres ver uma coisa gira? – perguntou George a Fred.
- Obviamente.
- Baxtor! – chamou George, dirigindo-se a Sophie, que tinha acabado de entrar no Salão.
- O que é que tu queres, tosco? – perguntou ela, mal-humorada.
- Bom dia para ti também, queres um rebuçado?
- Um rebuçado? – perguntou Sophie desconfiada olhando para o embrulho brilhante que George lhe oferecia – Será que finalmente aprendeste a ter boas maneiras? Pensava que não era possivel.
- Tens tão pouca fé em mim, Sophie. Toma lá, não é um rebuçado que te vai matar.
- Desta vez, mas só desta vez, sem nenhuma hipotese de repetição, vou acreditar em ti. – disse Sophie.
George estendeu-lhe o embrulho roxo e Sophie engoliu-o de uma só vez com uma expressão de desafio. Quase imediatamente, Sophie começou a impalidecer e um grosso fio de sangue começou a escorrer-lhe do nariz, cinco segundos depois a sua cara estava completamente coberta de sangue.
- George Weasley! Vais morrer por isto! Podes ter a certeza! – berrou ela enquanto se começava a dirigir para a enfermaria.
- Espera! – gritou George – preciso que comas outro o rebuçado para ver se pára!
- Só se eu fosse estúpida! – guinchou Sophie, desaparecendo pela porta do Salão e deixando um rasto de sangue bastante artístico atrás de si.
- Em princípio a Madame Pomfrey consegue arranjar-lhe o nariz. Mas também, se não conseguir, não há problema, ela esvai-se em sangue e pronto.
- Adeus crianças. – despediu-se Fred. – Já estamos atrasados. Ah, e parabéns outra vez, Harry! Mostra ao Cedric lindinho quem é que manda.
- Pois.. hmm, ‘tá bem obrigado – murmurou Harry olhando para o chão, a hemorragia de Sophie e a conversa casual tinham-no feito esquecer por completo os acontecimentos da noite passada.
- Se calhar também deviamos ir andando – sugeriu Hermione.
- Tem mesmo de ser? – perguntou Klair, relutante .
- Anda lá, são só duas horas, não doi nada – insistiu Jenny puxando Klair por um braço.
- Não és tu que estás de castigo quase todas as noites, pois não?! Ainda por cima anteontem foi dia de lua cheia e esqueci-me de limar a minha pena. Não ias achar nada agradável ver os teus pais presos dentro duma casa em chamas.
- Mas tu és super forte, Klair. Anda lá, não sejas mariquinhas.
- Um dia destes ainda te obrigo a beber poção polissuco e faço-te ir lá tu a ver se gostas…. – resmungou Klair baixinho, enquanto Jenny a puxava por um braço até às masmorras.
Enquanto desciam os degraus assimétricos e escuros das masmorras, Harry contou-lhes que, como Dumbledore já tinha dito no banquete, o Torneio dos Três Feiticeiros estava dividido em três tarefas e a primeira ia ser realizada no final de Novembro.
- Hoje à tarde, depois de escreveres ao Siruis – Klair soltou uma curta gargalhada (agora a sério, sou a única que acha estranho? – perguntou ela estupefacta) – Devíamos começar a treinar uns feitiços mais simples de defesa – avisou Hermione enquanto se aproximavam da sala de poções.
- Oh, Harry! – exclamou Kate assim que o viu – És campeão! Que fixe!
- Pois é! Parabéns! – congratulou-o Hannah com um sorriso cativante. – vais mostrar a quem quer que seja que pôs o teu nome no cálice de que é que és feito!
- Mas…hmm… vocês acreditam em mim? – perguntou ele estupefacto.
- Ias mesmo pôr o teu nome no cálice… – ironizou Kate – Sinceramente, acho que já tens problemas que cheguem. Para além disso, a Sophie contou-nos a teoria que vocês as três arranjaram ontem e parece-me muito plausível – concluiu ela apontanto para Jennifer e Hermione. – O meu pai trabalha no ministério e ouviu que as coisas não andam bem. O desaparecimento da Bertha Jorkins, os intrusos na casa do Olho-Louco…
- Hey! Potter! – chamou a voz afectada de Draco Malfoy – Gostas? – perguntou ele exibindo um crachá roxo e brilhante que dizia: APOIEM CEDRIC DIGGORY.
- Anda, Harry, ignora-o. – disse-lhe Hermiome puxando-o para o outro lado do corredor.
- Mas fica melhor Potter, olha só – disse ele com um sorriso retorcido, ao pressionar o crachá este tornou-se verde e a mensagem mudou para: O POTTER CHEIRA MAL. Assim como o de todos os Slytherins à sua volta.
Harry fez um movimento brusco em direcção a Draco mas, desta vez, foi Klair quem se pôs à sua frente.
- Deixa estar Harry – disse ela num tom calmo – Eu trato disto.
Apontou a varinha aos crachás brilhantes e, imediatamente, a mensagem mudou. Dizia agora, no mesmo tom esverdeado, O MEU PAI É UM TRASTE. Com um espressão de horror na cara Malfoy pressionou o crachá: a mensagem voltou a mudar, só que desta vez dizia EU SOU UM CHORAMINGAS.
- Vais pagar por isto, Tullman. – ameaçou Draco num esgar.
- Estou à espera. – disse ela num tom de desafio.
- Furnunculus! – gritou Malfoy.
- Encarcerous! – pronunciou Klair no instante a seguir.
Feixes luminosos sairam da ponta da varinha de cada um e tocaram-se no ar. Fizeram ricochete e saltaram de parede em parede até que o feitiço de Klair acertou nem cheio em Goyle, um dos “guarda-costas” de Draco, fazendo com que inúmeras cordas ásperas o envolvessem dos pés à cabeça. O feitiço de Draco acabou por acertar em Jenny que, com um grito, cobriu imediatamente a cara.
- Jenny! Estás bem?! – perguntou Harry tentando afastar as mãos de Jenny para lhe ver a cara.
- Deixa-me ver – pediu Klair – não pode estar assim tão mau. Levamos-te à enfermaria e ficas como nova – no entanto, só depois de algum tempo é que Jenny mostrou a cara: estava coberta de borbulhas vermelhas que pulsavam.
- Uma vez fiz esse feitiço à Melinda Jones e esteve três semanas de cama até que a cara dela voltasse ao normal. – disse Kate olhando para Jennifer com curiosidade.
- Não estás a ajudar! – choramingou Jenny, cobrindo outra vez a cara com as mãos.
Entretanto, Malfoy tentava libertar Goyle das cordas que o envolviam, mas sem sucesso. Cada vez que conseguia soltar uma, aparecia logo outra para toma o seu lugar.
- Liberta-o! – exigiu Draco, vermelho de raiva.
- É que é já a seguir… – ironizou Klair. Ela tinha a perfeita consciencia de que aquilo a ia fazer ficar de castigo até ao resto do ano, mas a cara de Malfoy ao ver os crachás e a visão dele a debater-se com as cordas que envolviam o amigo compensava todos os castigos que fosse apanhar.
- Posso saber a que se deve tanta agitação? – perguntou a voz fria de Snape, que acabara de surgir da sala de aula.
- A Tullman amaldiçoo o Goyle! Olhe! – disse Draco apontando para Goyle que se debatia com as cordas no chão.
- E o Malfoy amaldiçoo a Jenny! – protestou Klair afastando as mãos da prima muito a custo para mostrar as borbulhas que lhe cobriam a cara.
- Não vejo qualquer diferença. – respondeu Snape com um sorriso malicioso.
Jennifer rompeu em lágrimas e subiu as escadas das masmorras a correr até à enfermaria. Talvez por sorte, Kate e Klair começaram ao mesmo tempo a insultar Snape de todas as maneiras que lhes ocorreram, no entanto, nem mesmo o eco produzido pelas paredes da masmorra conseguiram impedi-lo de ouvir o essencial.
- Vejamos – começou ele calmamente quando elas finalmente acabaram– Menos 50 pontos para Ravenclaw e Hufflepuff e uma semana de castigo para as duas.
- Mas eu já estou de castigo… – comentou Klair.
- Já que fazes questão, Tullman, ficas o resto do mês. Agora, era melhor entrares senão ainda te mando expulsar.
Klair entrou na sala escura muito a contragosto, apetecia-lhe partir o nariz a Snape ou até mesmo transformá-lo num sapo, sim, num sapo viscoso e depois esmagá-lo. Quando se sentou ao pé de Patrick ainda estava a fervilhar de raiva e os risos histéricos dos Slytherins não ajudavam nada.
- Patrick – murmurou ela ao amigo – Esta noite praticamos legilimância. Quero extorquir-lhe todos os pedaços de informação humilhante que conseguir e mostrá-los a toda a escola.
- Ok – respondeu ele num encolher de ombros – Mas não vai ser facil.
- Isso sei eu. Mas, se calhar, usando o elemento de surpresa e…
- Ouve, Klair, conseguires arrancar-lhe algum tipo de informação é tão provavel como começarem a chover ovos de dragão.
- Então… mas… até foste tu que insististe…
- Eu disse que era improvável, não impossivel. Só não quero que fiques com esperanças.
- Não te preocupes com isso, eu consigo.
- Se tu o dizes…
- Está calado, rapaz. Eu sou um génio no que toca à arte da omissão.
- Sim, e eu sou o Merlin.
- TULLMAN! – gritou Snape. – A minha aula está a interromper a tua conversa?
- Nem por isso – respondeu Klair.
- Menos quinze pontos para Ravenclaw. Se te volto a apanhar distraída a tua equipa vai-se ressentir bastante.
- Mas eu não estava distraída. Chama-se “multitasking”. – disse Klair mostrando uma folha de pergaminho coberta com diagramas e apontamentos.
- Menos cinco pontos para Ravenclaw. Pensava que já tinha demonstrado que o teu exibicionismo idiota não era bem recebido na minha aula.
- Juro-te, Patrick – sussurrou Klair quando Snape finalmente lhe voltou as costas – em Portugal não havia pessoas com esta atitude.
Capítulo IX: O Cálice de Fogo
Fevereiro 8, 2009
A verdade é que nem Klair tinha grandes intenções de cumprir a sua promessa de continuar noutro dia as aulas de Legilimância nem Harry conseguiu falar com Jenny. Tendo sido constantemente interrompido pelas mais variadas razões sempre que tentava durante as semanas que se seguiram.
Assim que os castigos acabaram para Klair, deixou de sentir o impulso vingativo que tinha antes. Se bem que tivesse apanhado mais duas semanas de punições antes de chegarem a meio de Outubro mas, afinal, agora com a sua pena limada, já nem metade dos efeitos do pergaminho sentia, por isso, se não fossem as insistências de Patrick, tinha desistido por completo da ideia de praticar Legilimância. As coisa tinham começado a evoluir a uma velocidade alucinante; rapidamente, Kathryn, Hannah, Kelly, Sophie e Hermione tornaram-se as melhores amigas de Klair e Jenny assim como Patrick e, obviamente, Harry.
Como planeado, no dia antes do Halloween, chegaram as academias de Durmstrang e Beauxbatons. Os alunos de Durmstrang eram maioritariamente rapazes entroncados (entre eles, incluía-se Viktor Krum, um famosíssimo jogador de Quidditch) de aspecto carrancudo e cujo uniforme era forrado de pêlo do que parecia ser raposa do árctico (selvagens! – manifestou-se Klair assim que os viu entrar pelo salão a dentro), tinham vindo num barco muito escuro, pelo lago nos jardins da escola, que parecia um navio assombrado. Pareciam ser do Norte da Europa e tinham o director com um aspecto sombrio e ameaçador, chamava-se Igor Karkaroff. Tinha dentes amarelados e um sorriso permanente que ficava entre o sínico e o sinistro.
Por outro lado, os alunos da academia de Beauxbatons eram uns “empertigados demasiado sensíveis” (como Kate lhes chamou), provavelmente do sul de França (embora ninguém soubesse ao certo de onde vinham), o seu meio de transporte era, nem mais, nem menos, que uma enorme carruagem puxada por cavalos alados. A directora era uma mulher gigantesca com cerca de três metros de altura e um aspecto ameaçador a quem os alunos chamavam Madame Maxime.
***
No dia seguinte, ninguém se conseguia concentrar nas aulas. Os professores desistiram de tentar ensinar o que quer que fosse e se se falasse em trabalhos de casa, alguém acabaria por perder um olho. Na noite anterior, Dumbledore tinha explicado que todos os que quisessem participar no Torneio dos Três Feiticeiros tinham de escrever o seu nome num pedaço de pergaminho e pô-lo dentro dum cálice de onde saíam grandes chamas azuladas, que tinha sido colocado no meio do salão chamado O Cálice de Fogo. Era um dispositivo muito antigo que servia como juiz imparcial na escolha dos campeões da escola. À sua volta, o próprio Dumbledore, tinha desenhado uma linha de idade, apesar de muitos protestos, para que nenhum aluno menor de idade pudesse inscrever-se no torneio. Fred e Geoge Weasley ainda tentaram passá-la usando uma poção de envelhecimento mas escusado será dizer que a tentativa foi mal sucedida e acabou com os gémeos na enfermaria com longas barbas brancas e risos incontroláveis da parte de Sophie.
Então, nessa noite, o cálice “cuspiria” o nome do campeão de cada escola. E, inevitavelmente, teriam que competir. Por volta das nove, depois do jantar, Jenny e Klair desceram juntas até ao salão.
- Credo, isto está mesmo cheio – comentou Jenny enquanto empurrava alunos do 1º ano para encontrar um lugar.
Acabaram por se instalar ao pé de Patrick, Kate, Sophie e Kelly, com Harry, Ron, Hannah e os gémeos Weasley logo atrás de si, já sem qualquer vestígio de barba. Ouvia-se um burburinho intenso de entusiasmo, que apenas se intensificou quando Dumbledore entrou no Salão.
- SILÊNCIO – Gritou ele. Imediatamente, o barulho cessou. – Boa noite – retomou ele com uma calma renovada – Hoje faz-se história. 400 anos passaram desde o último Torneio dos Três Feiticeiros e agora, depois de muito esforço por parte do ministério da magia, as três escolas de magia mais prestigiadas no mundo voltam a reunir-se para disputar o grande prémio…
Seguiram-se mais umas frases inspiradoras por parte de Dumbledore que incluíam: “Ao vencedor deste desafio, aguarda glória eterna e fortuna incalculável” e ainda “Aos que se inscreveram de ânimo leve, cuidado! O cálice de fogo representa um contracto impossível de quebrar, terão que participar obrigatoriamente!” Só quando se começaram a ouvir protestos por partes dos alunos é que Dumbledore começou a avançar para o centro do salão, onde estava o Cálice.
- Pronto – disse ele com um sorriso olhando para a antecipação estampada no rosto dos alunos – Vou então revelar os campeões.
Dumbledore colocou-se ao lado do cálice e esticou o braço, quase imediatamente as chamas azuladas tornaram-se vermelhas e um pequeno pedaço de pergaminho voou em direcção à mão de Dumbledore.
- O campeão de Durmstrang é… Viktor Krum!
A sala explodiu em aplausos, Krum levantou-se e dirigiu-se para a sala onde todos os campeões se deviam dirigir, que ficava atrás da mesa dos professores. A seguir, as chamas que saiam do cálice voltaram a ficar vermelhas e um novo pecado de pergaminho saiu.
- O campeão de Beauxbatons é… Fleur Delacour!
Ao contrário dos alunos de Durmstrang, muitos alunos de Beauxbatons em vez de aplaudir Fleur (uma rapariga com aspecto de Veela que, aparentemente, irritava profundamente Kelly) romperam em lágrimas. E, pela terceira vez, as chamas adoptaram uma tonalidade escarlate e um pedaço de pergaminho voou de dentro do cálice.
- Uhh! É agora! – disse Hannah com entusiasmo.
- Meh… – comentou Sophie – de certeza que é o Cedric “lindinho”.
- Não sejas assim! – censurou Kate – Ele é um óptimo feiticeiro.
- Até é capaz, mas…
Contudo, Sophia não conseguiu acabar o raciocínio pois Dumbledore tinha acabado de desdobrar o pedaço de pergaminho e preparava-se para ler o nome do campeão de Hogwarts.
- E, por último, Cedric Diggory, como campeão de Hogwarts!
Nos segundos seguintes, os Hufflepuffs fizeram uma algazarra tal que parecia que Hogwarts estava a ser invadida por bruxas carpideiras. Cedric levantou-se do seu lugar e começou a caminhar até à sala por onde Fleur e Krum tinham desaparecido pouco antes de o seu nome ser chamado. No entanto, ao passar por Hannah estacou, como se não tivesse muito bem a certeza do que ia fazer a seguir. Olhou para ela, que ainda estava a bater palmas efusivamente com um enorme sorriso na cara e, sem mais nem menos, pondo-lhe a mão à volta da cintura, beijou-a. Foi um beijo demorado e intenso, acompanhado por apupos da parte dos Slytherin e assobios dos Hufflepuff. Quando finalmente se separaram e Cedirc desapareceu pela porta de madeira no fundo da sala, o barulho começou a diminuir.
- Desde quando?! – perguntou Klair estupefacta.
- Desde ontem – respondeu Hannah com um sorriso enquanto se sentava.
- E dizer-nos alguma coisa, não?! – quis saber Jenny indignada.
Porém, não conseguiram ouvir a explicação de Hannah pois Dumbledore tinha recomeçado a falar.
- Agora que temos os três campeões… – no entanto, algo não estava bem, o cálice voltara a agitar-se e as chamas ganharam, de novo, uma tonalidade avermelhada. Um burburinho curioso envolveu a sala e Dumbledore aproximou-se do cálice, que lançava agora outro pedaço de pergaminho para o ar. O velho director apanhou e depois de o ler, com uma expressão de puro choque no rosto, chamou:
- Harry Potter!
O burburinho aumentou significativamente de volume, agora parecia que o salão estava cheia de abelhas zangadas. Harry deixou-se ficar sentado no seu lugar, completamente petrificado; aquilo não lhe podia estar a acontecer, devia haver algum engano, ele não tinha posto o nome dele no cálice e mesmo se quisesse não conseguiria.
- HARRY POTTER! – voltou a chamar Dumbledore.
- Vai lá – sussurrou Jenny a Harry. – Boa sorte – desejou-lhe ela enquanto ele caminhava até à porta de madeira.
Mas quanto mais andava mais longe lhe parecia a porta e, ainda por cima, ao zumbido insuportável tinham-se juntado comentários desagradáveis da parte dos Slytherin. Depois de imenso tempo a andar (ou pelos menos assim pareceu a Harry), finalmente chegou à sala dos campeões: tinha uma lareira numa das paredes onde crepitavam alegremente labaredas, haviam algumas estantes vergadas sob o peso dos inúmeros livros que suportavam e algumas secretárias cobertas com objectos curiosos, alguns dos quais assobiavam insistentemente. Assim que Harry entrou, Fleur, que estava a falar com Cedric e Krum, sacudiu a sua longa cabeleira loura e perguntou-lhe com um tom de superioridade:
- Quê eztáz aqui a fazerr, rapazinho? Querem-nôs no salon outrra vêz?
- Hmm, não. – respondeu-lhe Harry, indignado. “Rapazinho”?! Afinal ela não era muito mais velha que ele.
Antes que Harry conseguisse dizer o que pensava, Dumbledore entrou de rompante na sala seguido pela Professora Macgonagall, Barty Crouch, Madame Maxie, Karkaroff e Snape.
- Harry, puseste o teu nome no cálice?! – perguntou-lhe Dumbledore de imediato.
- Não! – respondeu ele com sinceridade.
- Pediste a um aluno mais velho para por o teu nome no cálice por ti?
- Não!
- É mais que claro que ele está a mentir – comentou Snape com uma voz trocista. – o Potter sempre demonstrou uma tendência para quebrar as regras.
- Chega Severus – disse Dumbledore num tom rígido.
- É obvio que ele não pode competir! – manifestou-se Karkaroff – Assim Hogwarts tem mais hipóteses de ganhar.
- Istô é lamentável! – disse Madame Maxime – Se eu sôubessse tinha trrrazidô muito mais alunos. Sintô vontade de irrr já embôrra.
- Não podem! – guinchou Barty Crouch – o cálice de fogo constitui um contrato mágico inquebrável, eles têm todos que competir.
- Então vamos submeter todos os nomes dos nossos alunos outra vez até sair um segundo nome – impôs Karkaroff.
- O cálice apagou-se, só se reacende daqui a quatro anos – disse a voz de Moody vinda de uma sombra, aparentemente ninguém o tinha visto entrar – o jovem Potter não tem outra opção senão competir, para além disso era preciso um feiticeiro particularmente poderoso para quebrar a linha de idade que o Dumbledore desenhou, nem o Potter nem nenhum aluno desta escola conseguiria tal coisa sozinho.
- Sozinho, dizes tu? – perguntou-lhe Dumbledore fixando o vazio.
- Sim, foi o que eu disse. – retorquiu Moody com impaciência.
- Severus – disse Dumbledore distraidamente – traz-me a Klair Tullman…
- A Tullman? – perguntou ele estupefacto.
- De certo sabes quem é – respondeu-lhe Dumbledore fixando o vazio com uma expressão curiosa – Puseste-a de castigo quase todos os dias desde o início do ano… Bem, traz a Klair Tullman e o Patrick Reeves, ah e, já agora, também a Jenny Blomwood.
- Sim, senhor – respondeu Snape e desapareceu pela porta de madeira até ao salão.
- Tullman, Blomwood!
- O que é que eu fiz agora? – perguntou Klair ao ouvir o seu nome.
- Não te armes em esperta – retorquiu Snape – o Director quer-vos ver às duas.
- A mim também? – perguntou Jenny incrédula.
- Tens algum problema auditivo ou só não consegues compreender o que eu digo?
- Pronto, estamos a ir. – acedeu Klair.
Jenny e Klair caminharam sozinhas até à porta, Jenny ia rodar a maçaneta quando Klair a interrompeu.
- Olha! – murmurou-lhe ela apontando para Patrick, Snape também o tinha ido buscar.
- Porque é que achas que o Dumbledore quer falar connosco? – perguntou Jenny.
- Sei lá, só espero que ele não ache que temos alguma coisa a ver com isto. – disse Klair esperançosa olhando para uma rapariga dos Slytherin chamada Pansy Parkinson que esta a apontar para elas e a rir-se ruidosamente.
- Pobre Harry… – lamentou-se Jenny – Que problema tão estúpido, é o que dá, não se devem usar artefactos mágicos centenários.
- Ah não, o problema não foi do cálice. Alguém inscreveu o Harry neste torneio e de certeza que não lhe quer bem.
- Como é que podes ter a certeza?
- Artefactos centenários empoeirados nuncafalham, Jenny. – respondeu-lhe Klair enquanto rodava a maçaneta pois Patrick aproximava-se rapidamente com o mesmo ar confuso que elas. – Depois de vocês – disse Klair deixando Jenny e Patrick passarem-lhe à frente.
- Ah! – disse Dumbledore assim que todos entraram – Que bom ver-vos a todos. Bem, acontece que dada a circunstancia que é, muito claramente, de origem delicada, tenho algumas perguntas a fazer-vos.
- Dumblydôrr! – protestou Madame Maxime – Que têm eztaz raparigas a verr com o lamentável sucedidôo?
Dumbledore limitou-se a levantar uma mão para a calar a prosseguiu.
- Acontece que vocês são os três são alunos extremamente dotados e gostaria de saber a vossa opinião sobre tudo isto.
- Com todo o respeito – começou Patrick – é muito claro que não estamos aqui porque simplesmente quer saber a nossa opinião.
- É que, se quisesse – interrompeu Klair – de certeza que a Hermione Granger, que é tão dotada como nós, também tem uma opinião válida.
- Que atrevimento… – cuspiu Karkaroff.
- Ora, isso é muito perspicaz da vossa parte – respondeu Dumbledore ignorando por completo Karkaroff. – mas, já que aqui estamos, façam a vontade a um velho louco.
- Bem – começou Patrick com a sua energia habitual de quem tem muito para dizer e com um brilho invulgar nos olhos – depois de excluir a hipótese de o cálice ter algum problema, cheguei à conclusão de que o nome do Harry foi introduzido no cálice por um feiticeiro particularmente poderoso.
- Fascinante! – disse Dumbledore – E como é que esse hipotético feiticeiro conseguiria fazer o nome Harry sair do cálice com todas as certezas?
- Para isso teria que usar um feitiço Confundus e inscrever o Harry no torneio como o único aluno de uma quarta escola.
- Simplesmente brilhante! – exclamou Dumbledore com aparente sinceridade – Isso resultaria de certeza. Quer acrescentar alguma coisa, Miss Blomwood – perguntou ele virando-se para Jenny que apresentava um olhar muito confuso.
- Hmm, não…? – respondeu ela num murmúrio.
- Sinceramente, Miss Blomwood, não é que eu duvide das suas capacidades intelectuais até porque sei que é extremamente competente, mas foi precisamente o que eu achei que a menina ia dizer.
- Então porque é que chamou? – perguntou-lhe Jenny.
- Toda a gente tem as suas excentricidade – respondeu Dumbledore com simplicidade. – Agora – continuou ele, virando-se para Klair e Patrick - só vos queria perguntar mais duas coisinhas…
- Se éramos capazes de o fazer? – antecipou-se Patrick.
- Sem a menor das dúvidas – completou Klair com um sorriso enigmático. – Agora, se o fizemos efectivamente, é uma pergunta completamente diferente.
- E fizeram? – perguntou Dumbledore com uma curiosidade quase infantil – Talvez por mero interesse experimental?
- Não. – respondeu Patrick num encolher de ombros.
- Não temos muito tempo livre, sabe como é, muitos trabalhos de casa e ainda por cima agora tenho detenções semana sim semana não, por isso mesmo se quiséssemos não tínhamos tempo e não íamos pôr, de certeza, o nome do Harry no cálice. Sinceramente, acho que ele já tem problemas que cheguem.
- Não podia concordar mais consigo Miss Tullman. – disse Dumbledore com um sorriso amável – Podem ir, mas receio que o Harry tenha que ficar. Boa noite.
- Boa noite, professor – despediram-se todos.
- O que foi aquilo Dumbledore?! – perguntou Karkaroff depois da porta de madeira se fechar.
- Aquilo – disse ele com um tom de tristeza na voz – foi a confirmação dos meus piores receios.
Capítulo VIII: A Punição de Malfoy
Janeiro 13, 2009
Naquela noite era suposto Klair e Patrick praticarem Legilimância. No entanto, parecia que Snape tinha adivinhado, Klair só conseguiu sair do castigo por volta da uma da manhã, para além de ser incrivelmente tarde, Klair estava exausta do esforço psicológico que fizera e não estava em condições de lutar contra alguém a invadir-lhe a mente.
- Achas mesmo que as pessoas vão esperar que estejas no teu melhor para usarem Legilimância contra ti?! – perguntara-lhe Patrick quando regressou à sala comum dos Ravenclaw, aparentemente, ele tinha ficado acordado à sua espera.
-Não, não acho. Eu prometo que amanhã, nem que chegue às duas praticamos. Ok? Hoje não consigo mesmo, desculpa. – Klair arrastou-se para os dormitórios das raparigas apesar dos protestos incessantes de Patrick.
- Mas…! – gritou-lhe ele.
- Mas nada! Boa-noite, até amanhã – respondeu-lhe ela do cimo das escadas do dormitório.
No dia seguinte, Patrick não parou de a chatear o dia todo. Nem mesmo durante as aulas de Cuidados com as Criaturas Mágicas, enquanto tratavam do Explogentos (cruzamento entre manticores e caranguejos-cauda-de-fogo) ele se absteve de lhe dar conselhos para evitar que o pergaminho a afectasse tanto.
- Ouve – disse-lhe ele – Se ficar assim tão mal todos os dias nem fale a pena treinarmos Legilimância. Se…
- E se a deixasses em paz? – perguntou Sophie vinda do lado esquerdo de Klair – Já lhe chega ter que aturar o Snape todas as noites quanto mais ter-te a ti sempre a chateá-la.
- Não me lembro de te ter pedido a opinião – zombou Patrick.
- Estamos a falar de quê? – perguntou Jenny com uma ponta do cabelo em fogo (os Explogentos tinham caudas que explodiam), seguida de Harry.
- Ah, nada de especial – ironizou Klair – O Patrick quer que construa uma cortina de ferro à volta da cabeça e a Sophie provavelmente quer matá-lo, sei lá. – concluiu ela com um encolher de ombros despreocupado.
- Portanto…– retorquiu Jenny com indiferença – O costume.
- Nem mais. Enfim, como eu ia a dizer ao Patrick antes da Sophia nos interromper, descobri uma maneira de minimizar os efeitos do pergaminho maluco. Ontem à noite não conseguia dormir por isso fui até à biblioteca…
- Incrível como estás aqui há menos de uma semana e já começaste a fazer porcaria, Tullman. - era Helena, rodeada de raparigas com aspecto de vespas zangadas.
- Primeiro – começou Klair com um tom de fúria na voz, apesar na pressão que Jenny lhe estava a fazer no braço para ela se acalmar – Como podes falar da porcaria que eu faço quando parece que, quando falas, te saí esterco da boca?!
Sofia rompeu em gargalhadas ruidosas, assim como Harry e Jenny. Por baixo do ruído que faziam ouviu-se Hagrid despedir-se e dispensar a turma, os alunos começaram a subir a encosta até ao castelo, no entanto, Helena não parecia ter a mínima intenção de os seguir, parecia que estava a mastigar o próprio maxilar e fervilhava em raiva.
- Tens alguma coisa a dizer? – perguntou Jenny sarcasticamente.
- Não, por acaso não tem. Eu avisei-a para não falar com gente imunda como vocês. – respondeu um rapaz alto, magro, pálido, com um cabelo tão louro que quase era branco e um rosto desagradável. – Olhem, olhem, se não é o Potter. Parece que arranjaste outra namorada, o que aconteceu à aquela pobretanas da Weasley? Deixou de te perseguir? E vejo que também tens um novo grupo de falhados. O que fizeste à sangue-lama? Finalmente decidiste pô-la na jaula onde ela merece viver?
- Cala-me essa boca Malfoy! – gritou-lhe Harry já com a varinha em punho.
- Ai, estamos muito confiantes. Olha que a Baxtor não te vai servir de grande protecção. Acho quem nem sabe ver onde é que se pega na varinha.
- Ok, CHEGA! – Sophia deixou cair o saco no chão e começou a arregaçar as mangas. Klair e Jenny seguiram-lhe o exemplo mas Harry puxou-as, uma a uma, por um braço.
- Não vale a pena – disse-lhes ele. – Vamos embora.
Apanharam os sacos e começaram a subir o relvado, virando as costas a Draco. Deviam ter dado cerca de dois passos. Quando ouviram alguém gritar.
- ISSO É QUE NÃO, RAPAZ!
Klair sentiu uma coisa peluda a enrolar-se nos seus pés e caiu para a frente. Moody vinha a coxear furiosamente do castelo com a varinha estendida.
- NUNCA TE ENSINARAM A NÃO AMALDIÇOAR PELAS COSTAS, MEU COBARDE?!
Aos pés de Klair estava, o que parecia ser, um furão albino. Moody apontou-lhe a varinha e fê-lo elevar-se no ar e bater contra a copa de, basicamente , todas as árvores nas redondezas.
- Enfrenta-se – o – inimigo – de – frente – não – sejas – cobarde – dizia ele ao furão, frisando cada palavra com mais uma pancada.
Klair levantou-se e dirigiu-se para Jenny.
- Aquele é o Malfoy? – murmurou Klair à prima.
- Não, é o espantoso furão voador – respondeu ela divertida – A Helena não parece estar a achar piada nenhuma, pois não?
Realmente, Helena estava com um ar chocadíssimo, com as mãos a tapar a boca.
- Professor Moody! – gritou uma voz vinda do castelo, era a professora Macgonagall – O que está a fazer?!
- A ensinar! – respondeu ele fazendo o furão dar mais umas piruetas enquanto guinchava incessantemente.
- Isso… isso é um aluno?! – perguntou ela alarmada.
- Em teoria… sim.
- O professor Dumbledore deve-lhe ter dito que não usamos transfiguração como castigo.
- É capaz de ter referido…
A professora Mcgonagall apontou a sua varinha ao furão e este transformou-se outra vez em Malfoy, que estava muito despenteado e num completo desalinho.
- Quando o meu pai souber disto… – balbuciou ele.
- O QUÊ?! Eu sei histórias sobre o teu pai que te deixavam com pesadelos para o resto da vida, ouviste?!
Draco nem ouviu, tinha começado a subir a colina a toda a velocidade e nem olhou para trás.
- Professor, da próxima vez agradecia que falasse com o chefe de equipa do rapaz, em vez de o transformar num texugo ou assim. – advertiu Mcgonagall.
- É o que eu farei. É o Snape, não é? Eheh, outro com quem eu espero ter uma conversa. Boa tarde esfregona, Blomwood, Potter, Baxtor… – E voltou para o castelo seguido pela professora Mcgonagall.
- Brilhante, simplesmente brilhante – comentaram os gémeos ao ouvir, pela terceira vez, o que acontecera nos campos.
Estavam na hora de almoço e Jenny, Klair, Sophia, Harry e Patrick não tinham conseguido ter um minuto de descanso.
- Era óptimo que tivesses sido tu a transformares-te num furão. – disse George a Sophie com um olhar sonhador. – Sophia Baxtor, a incrível fuinha voadora!
- E se fosses ordenhar uma Acromântula?! – respondeu-lhe desdenhosamente Sophie.
- Vá lá, acalmem-se meninas– pediu Jenny. – mantenhamos a calma, até porque temos encantamentos a seguir.
- O que é que uma coisa tem a ver com a outra? – perguntou Klair distraidamente enquanto picava um bocado de beringela com o garfo.
- Sei lá! – retorquiu Jenny num encolher de ombros. No entanto, havia qualquer em Klair que não estava bem. Desde aquele dia na biblioteca que ela parecia pensativa. – Mas ouve lá… o que é que interessa? Mas a final, o que é que se anda a passar contigo?
Klair parou de atormentar a beringela e olhou para a prima.
- Não se passa nada, ok? Nada, zip, nicles, nichts, percebeste?
- Uhh, estamos alteradas, não estamos? – interrompeu Kate. – Então, ouvi dizer que o Draco se transformou num roedor durante o intervalo.
- Estamos mais ou menos a meio duma coisa… – disse Jenny.
- Não não estamos. Podes ficar com o meu lugar Kate, já estava de saída.
Klair pegou nas suas coisas e saiu a correr do salão. Realmente aquilo não era nada normal vindo dela, pensou Jenny. Embora a sua prima tivesse um mau feitio desgraçado normalmente, se Klair estivesse chateada, ela seria a primeira a saber porquê. A Klair nunca mantinha grandes segredos. Não devia ser nada de grave, sossegou-se Jenny, afinal, qual era a pior coisa que podia acontecer em Hogwarts? Provavelmente só estava cansada dos castigos nocturnos.
Jenny acabou por decidir que ia falar com a prima na aula de encantamentos. Contudo, estavam a praticar feitiços de silenciar e, embora tanto ela como Klair conseguissem calar os seus corvos, papagaios, ratos e gatos a maior parte das pessoas não, por isso a aula não passou dum enorme chiqueiro. Jenny não conseguiu sequer conversar com Klair acerca do estado do tempo. O resto do dia também foi estonteantemente ocupado, tanto que Jennifer acabou por se esquecer completamente porque é que queria falar com a prima.
À noite, como sempre, Klair partiu para as masmorras. Ia-se a despedir de toda a gente quando Jenny foi ter com ela e deu-lhe um abraço muito apertado.
- Jenny, tens consciência de que eu não tenho uma doença terminal, não tens? – perguntou-lhe Klair um tanto surpreendida com a atitude da prima.
- Claro… mas é que tens andado tão em baixo e pronto… quer dizer…hmm…
- Oh!… não há razão para ficares assim tão preocupada com os castigos – sossegou Klair, adivinhando o que Jennifer queria dizer. – Olha, até arranjei uma solução e tudo – baixou-se e tirou do saco a sua pena mas tinha qualquer coisa de diferente, a ponta com que se escrevia parecia irregular e muito torta – Eu ia-te explicar hoje de manhã mas a transfiguração repentina do Malfoy distraiu-me. Ontem à noite não consegui dormir por isso fui até à biblioteca e fiz uma pesquisa na área restrita (realmente deviam trancar melhor o portão), de qualquer maneira, descobri que há uma maneira de, vá, contornar o encantamento do pergaminho. Aparentemente, um feiticeiro chamado Ludovico Weisman conseguiu anular o efeito da maldição do Tormento que havia no pergaminho limando a ponta da sua pena com uma lima de prata numa noite de lua cheia. Já tinha ouvido falar que as fases da lua tinham influência no fabrico de poções mas não sabia que podia anular encantamentos. E, por sorte, ontem foi uma noite de lua cheia por isso usei uma das limas que tinha naquele estojo de poções do Peru e limei a ponta da minha pena.
- Tens a certeza que isso resulta? – perguntou Jenny desconfiada.
- Não tenho a certeza mas em principio sim. Até porque Ludovico era um espião e há registos de que ele conseguiu fugir duma prisão de alta segurança onde usavam esses pergaminhos, sem qualquer tipo de problema ou distúrbio psicológico.
- Quero ver isso – disse Jennifer num tom de desafio. – Bem, vai lá. E é melhor que essa pena resulte porque se não voltares em condições o Patrick crucifica-te.
- Podes crer. – concordou Klair com ironia.
Como previsto, naquela noite, a pena parcialmente destruída de Klair protegeu-a de sentir os efeitos da maldição do Tormento. Embora Snape pudesse estranhar a letra de Klair nos registos que estava a transcrever (por causa da ponta torta e irregular da pena o texto era quase ilegível), Klair convenceu-se de que tinha corrido tudo bem, até porque conseguiu sair antes da meia-noite. No entanto, ao sair da sala, sentiu-se deveras estranha, não conseguia defini-lo concretamente era como um enorme cansaço que nada tinha a ver coma hora tardia. Quando voltou à sala comum Patrick, como seria de esperar, estava à sua espera.
- Então hoje sentes-te “capaz”? – perguntou-lhe ele com um toque de sarcasmo, fazendo umas aspas com os dedos ao pronunciar capaz.
- Sim, hoje sim.
- Então vamos. Há uma sala de transfiguração no 2º andar que está sempre aberta.
Lançaram um feitiço de camuflagem sobre si próprios e dirigiram-se para o segundo andar tentando evitar Argus Filch e Mrs. Norris. A sala era como muitas outras no castelo: tinha uma secretária encostada à parede do fundo, umas carteiras para os alunos à sua frente e uns quantos armários do lado esquerdo da divisão. Com um gesto da varinha Patrick varreu todas as carteiras para um lado, libertando-lhes o caminho.
- Vamos lá praticar Legilimância! – disse Klair com entusiasmo.
- Na verdade acho melhor começares pela Oclumância. – sugeriu Patrick - Não vale a pena passares para a Legilimância se não conseguires proteger a tua mente contra ameaças externas.
Ameaças externas? Pensou Klair, ele até fazia parecer aquilo muito sério, a única coisa que ela queria fazer era chatear a sério um professor que ela odiava. No entanto não estava para discutir, por isso encolheu os ombros e voltou a guardar a sua varinha no bolso. Dirigiu-se para o meu da sala e fechou os olhos, tentou esvaziar a sua mente, neste momento não se podia preocupar com Jenny, as aulas ou mesmo com os castigos insuportáveis. Ouviu a voz de Patrick ecoar-lhe no fundo da cabeça, devia estar a perguntar se ela estava pronta, assentiu, ouviu-o murmurar o que parecia ser leglimens. Sentiu uma escuridão avassaladora a pressionar-lhe contra os olhos e a seguir, como que estivessem a puxar-lhe a nuca para dentro da sua própria cabeça com um anzol. Resistiu à tentação de deixar de lutar contra a dor e manteve firme, era como se estivessem a tentar arrancar-lhe as memórias à força das profundezas da sua mente, às vezes conseguia ver imagens desfocadas, quase imperceptíveis, dela e de Jenny aparecerem-lhe diante dos olhos.
Finalmente, passado, o que pareceu a Klair, horas. A sensação horrível desapareceu ela voltou à sala de transfiguração. A alguns 5 metros dela, Patrick cambaleou e apoiou-se numa parede para não cair. Ele não estava com grande aspecto e, agora que pensava nisso, ela também não se sentia lá muito bem.
- Foi melhor do que eu pensava – disse ele endireitando-se – Mas pode melhorar. Acho que vi a Jennifer umas duas vezes.
Klair concordou e decidiram praticar mais. Mas quanto mais insistiam pior era. Por volta da sétima tentativa Patrick conseguiu ver praticamente todas as memórias de Klair.
- Olha, é melhor pararmos por hoje – sugeriu ela – Já estou cansada. Amanhã continuamos.
Patrick assentiu e subiram as escadas até à sala comum dos Ravenclaw. Despediram-se e cada um dirigiu-se para o respectivo dormitório.
Nessa mesma altura, estava Jennifer sentada na sala comum dos Gryffindor a tentar acabar os trabalhos de casa de transfiguração quando Harry se veio sentar a seu lado.
- Olá – disse-lhe ele.
- Hmm… olá – respondeu-lhe Jenny, a presença de Harry sempre a deixara ligeiramente nervosa afinal, para além de ser incrivelmente famoso Harry era, nem mais nem menos, que o rapaz mais giro da escola (ou assim pensava ela).
- A Hermione já corrigiu os meus – disse-lhe ele como quem quisesse meter conversa – se quiseres podes copiá-los.
- Não, obrigada – respondeu-lhe Jenny com amargura, aquela minúscula referencia a Hermione tinha sido a suficiente para a chatear – eu consigo fazer sozinha. Não tenho muito o hábito de copiar por outras pessoas – ok, isto era ligeiramente falso, até porque Jenny se fartava de copiar por Klair, mas não queria que Harry a achasse estúpida.
- Oh, claro que não, não era isso que eu queria dizer, é que… – Harry corou e calou-se. Aquela conversa não estava a correr como ele tinha planeado. Mas conseguiu recuperar a coragem e continuou – Olha, eu sei que não nos conhecemos há muito tempo mas queria propor-te uma coisa quer dizer… é mais um pedido…
- Ah… claro, podes pedir-me o que quiseres.
- É que…
- Hey, Harry! Não vens dormir? – perguntou Ron do cimo das escadas do dormitório dos rapazes.
- Já vou - respondeu-lhe Harry por cima do ombro, voltando-se de seguida para Jenny.
- Mas é, tipo, hoje. – insistiu Ron – O Seamus e o Neville querem apagar as luzes.
- Eu já te disse que estou a ir, dás-me um segundo?! – pediu-lhe Harry, começando a ficar chateado.
Mas Ron deixou-se ficar no cimo das escadas com os braços cruzados a fitar Harry e Jenny.
- Se calhar é melhor ires… – murmurou Jenny. Não queria que Harry se sentisse na obrigação de ficar com ela, se calhar até tinha pedido a Ron para o interromper, não fosse ele mudar de ideias acerca de, bem… o que quer que fosse que ele lhe ia perguntar.
Harry suspirou tristemente.
- Desculpa Jennifer, já é tarde. Falamos amanhã. – justificou-se ele.
- Ah… está bem. Também vou andando para a cama.
Jennifer ficou a ver Harry subir com Ron e desaparecer pela porta do dormitório dos rapazes. Arrumou as suas coisas e subiu também para o seu quarto enquanto amaldiçoava Ron com todas as pragas que lhe ocorriam.
Capítulo VII: O Pergaminho da Angústia
Dezembro 15, 2008
Durante o resto do dia só se falou da extremamente interessante, mas algo tenebrosa, aula do velho professor Moody. Havia quem o achasse completamente lunático (como Jenny e Klair) mas ele também tinha grandes apoiantes, os gémeos Weasley eram da opinião de que só se aprendia realmente Defesa Contra as Artes das Trevas se se vivenciasse a sério a magia negra. Patrick também parecia concordar assim como Hannah Ivanov, que eram bastante entusiastas de tudo o que era obscuro. Klair, pessoalmente, também achava essa matéria fascinante, no entanto, desde que começara a cumprir os castigos de Snape que achava tudo o que era remotamente ligado a artefactos malignos, sinceramente repulsivo. Contudo, estava determinada a descobrir o que é que Snape estava a usar para a afectar, por isso, nessa tarde, Kate, Jenny, Klair, Hannah, Sophie, Kelly e Patrick foram até à biblioteca procurar informações sobre objectos amaldiçoados.
- Para começar – disse Patrick num tom autoritário que raramente se ouvia vindo dele. Estava, obviamente, no seu elemento. – Onde é que achas que estava a maldição? – perguntou ele a Klair.
- Como assim? – ela tinha ficado ligeiramente confusa com a pergunta – Assim que eu comecei a escrever… bem… comecei a sentir aquele pânico.
- Sim, sim… já tinhas referido isso – cortou ele impaciente – O que tu descreveste só se consegue através da presença de um Dementor, como isso me parece altamente improvável e a Legilimância tem efeitos secundários como perda de memória e desnorteamento temporário só nos resta o uso de um talismã com uma maldição de Tormento. Por isso – continuou Patrick depois de recuperar o fôlego – onde é que achas que estava a maldição? Na pena, no pergaminho ou na tinta?
- Bem, a pena era minha assim como a tinta, duvido que alguém as tivesse amaldiçoado sem eu ver, a não ser… – Klair lançou um olhar furtivo a Helena Crawford que tinha acabado de entrar na biblioteca com um grupo de amigas, com um ar sinceramente enjoado.
- A Helena não tem miolos para isso – disse Jenny.
- Concordo plenamente – corroborou Hannah – a rapariga é uma idiota, ninguém gosta muito dela na… – mas calou-se logo e tentou meter conversa com Kelly.
Jenny achou o comportamento de Hannah um pouco estranho e, pela primeira vez, apercebeu-se de que não fazia a mínima ideia a que equipa ela pertencia. Olhou para o monograma no pulôver dela mas, para sua surpresa, não tinha o nome da equipa nem a cor. Em vez de um texugo, águia, leão ou serpente a imagem apresentava o brasão de Hogwarts, e, em vez de ter um rebordo azul, amarelo, vermelho ou verde, este, era só cinzento. Talvez Klair tivesse razão, talvez houvesse qualquer de estranho naquela rapariga.
- Ah, essa rapariga é horrível – comentou Kelly referindo-se a Helena antes que Jenny tivesse oportunidade de verbalizar a sua opinião em relação a Hannah. – Acho que não gosta de mim. No outro dia disse-me para me afastar daquele rapazito muito giro… como é que ele se chama?… Drracô! Ja, é isso! – disse Kelly que, devido ao seu adorável sotaque, tinha dado uma acentuação estranhíssima ao nome, corando ligeiramente.
- Draco? Draco Malfoy?! – perguntou Jenny subitamente alarmada
- Ja… – respondeu Kelly.
- Porquê? – questionou Klair – Conheces?
- Mais ou menos. O Harry falou-me dele. É filho de um ricaço qualquer chamado Lucius Malfoy. É um Slytherin muito desagradável, ele e o Harry andam em pé de guerra desde o primeiro ano deles cá.
- Ah, então esse Draco está para o Harry assim como a Helena está para nós, que engraçado – comentou Klair distraída.
- Exacto, e tu! – disse Jenny com um tom falsamente acusador dirigindo-se a Kelly – pensava que tinhas melhor gosto em rapazes.
- Ele é um rapaz adorável – defendeu-se ela – Se se derem ao trabalho de o conhecer. – aparentemente, desde a aula de Adivinhação em que Kelly se sentara ao lado de Draco que eles se tinham começado a dar bem. Normalmente ele não era muito simpático para as pessoas mas o estatuto de super-estrela dela aliado ao sangue de Veela que lhe corriam nas veias deviam ter suavizado as coisas, tornando o desagradável e amargo rapaz que Draco era numa pessoa medianamente suportável.
- Nem toda a gente que se opõe ao teu amado é uma má pessoa, sabias Jenny?… – provocou Klair ainda abstraída a olhar para o vazio, parecia estar a pensar noutra coisa completamente diferente, normalmente quando isto acontecia, em vez de olhar as pessoas nos olhos quando se lhes dirigia fixava outro ponto qualquer da sala.
- Podemos voltar a concentrar-nos no que viemos aqui fazer?! – perguntou Patrick aborrecido antes que Jennifer tivesse tempo para se levantar e dar um tabefe à prima.
- Sim, vamos a isso! – encorajou Klair acordando do seu transe. – Já tínhamos estabelecido que a maldição estava no pergaminho, visto que foi o Snape que mo deu.
- Foi? E não podias ter referido isso antes?! – indagou Patrick zangado
- Pois realmente… Bem, de qualquer maneira, foi ele que mo deu e tinha um rebordo preto e era quase branco.
- Há mais alguma informação importante que te tenhas esquecido de referir?! Tipo, sei lá, que era um pergaminho cuspidor de fogo?! – silvou Patrick visivelmente chateado por Klair ter descuidado pormenores tão importantes como aqueles.
- Não, por acaso não…
- Então pronto, uns devem procurar informações na secção da Defesa Contra as Artes das Trevas e outros na secção das calamidades mágicas.
Estavam todos a levantar-se para começar a buscar quando Klair reparou que Hannah se mantinha no seu lugar. Estava a fixar o que inicialmente parecia uma estante, estava a brincar com o cabelo e sorria como se o natal tivesse vindo mais cedo. Só passado alguns segundos é que Klair se apercebeu que Hannah não estava a olhar para uma estante mas sim para Cedric Diggory, o seeker de equipa de Quidditch de Hufflepuff, um “prefeito” e, segundo o que se ouvia por aí, o preferido para a corrida a campeão de Hogwarts no Torneio dos Três Feiticeiros. Cedric, um rapaz alto, musculado, com olhos brilhantes e com espesso cabelo ondulado e castanho, estava do outro lado da biblioteca, focando a sua atenção ora num livro ora em Hannah.
- Pinga-amor! – chamou Klair estalando os dedos à frente dos olhos de Hannah – Vamos embora.
Hannah levantou-se ligeiramente envergonhada, e foi-se juntar a Kelly, Sophie e Kate enquanto Klair foi ter com Jenny e Patrick.
- Parece que está tudo parvo! – queixou-se Klair à prima – Primeiro tu e o Harry, depois a Kelly com o Draco e agora a Hannah e o Cedric lindinho.
- Hey hey! – queixou-se Jenny – não se passa nada entre mim e o Harry, se se passasse serias a primeira a saber.
- É mesmo isso… – murmurou Klair sarcasticamente.
Passaram então as próximas duas horas à procura de um artigo, de alguma informação, duma definição, até mesmo duma notícia que falasse de um pergaminho maldito. Contudo, não encontraram nada, cada vez que viam escrito pergaminho nalgum lado o seu coração dava um salto, mas na maioria das vezes era completamente irrelevante.
- Bem, ao menos aprendemos a fazer pergaminhos a partir do cuspo de hipogrifos e de folhas de bananeira – riu-se Jenny depois de duas horas à procura por entre dezenas de livros empoeirados.
- Se calhar foi impressão minha, se calhar ele não anda a usar nada… – suspirou Klair.
- Nada disso! – Impôs Patrick com uma atitude subitamente renovada – De certeza que alguma coisa foi…esperem… se isto não resultar nada vai… – Levantou-se tirou um pedaço de pergaminho amarrotado do seu saco e dirigiu-se à velha bibliotecária, Madame Prince, mostrou-lho e, depois de o analisar cuidadosamente, ela abriu o portão, ligeiramente desconfiada, que dava para a área restrita. Passados uns cinco minutos Patrick voltou com um livro enorme, encadernado em couro preto velho e cheio de pó. Posou-o ruidosamente em cima da mesa e abriu-o, o título era: Artefactos Malignos ao Longo dos Tempos. Abriu-o cuidadosamente e procurou qualquer coisa no índice.
- Aha! – disse ele triunfante – Cá está!
- O quê? – quis saber Klair, cheia de expectativa, estava a começar a pensar que tinha começado a endoidecer.
- O Pergaminho da Angústia!
- E não te podias ter lembrado disso há mais tempo?! Poupava-nos duas horas do nosso precioso tempo – comentou Hannah bocejando.
Patrick fez-lhe uma careta e virou-se para Klair.
- Tenho a certeza que é isto. O Pergaminho da Angústia – leu ele em voz alta – “artefacto mágico negro medieval concebido por Barnabás, o Perverso em 1602. Utilizado como castigo em presos políticos, espiões e traidores. Os efeitos incluem: sensação de pânico, medo indescritível, alucinações e torna a mente mais fraca sendo assim um óptimo meio para quebrar o espírito de Oclumens mais poderosos. Já foi também descrito como um “Sem-forma em papel” mostrando os maiores medos de forma muito vívida às suas vítimas. Utilizado de forma muito perseverante pode resultar em loucura, demência, alienação e psicose. É, normalmente, mais esbranquiçado do que a maioria dos pergaminhos, contudo, este objecto é Inominável não havendo assim maneira de identificar um Pergaminho da Angústia, no entanto, para não serem utilizados por engano podem apresentar alguma espécie de marca que os identifique, como um rebordo ou algum embelezamento. Não existe nenhum regulamento actual em relação a este artefacto mas, em vez disso, uma espécie de acordo não verbal nas escolas de feitiçaria que bane o seu uso nos alunos. Durmstrang é a única escola europeia que ainda utiliza este pergaminho como castigo.”
Quando acabou de ler, Patrick fechou o livro.
- Portanto, tudo quanto sabemos o Snape não está a fazer nada de ilegal. – concluiu Klair ligeiramente desiludida por não ter uma razão para ele ser despedido
- Bem, não é bem isso – disse Patrick, tentando animá-la – Se o Dumbledore soubesse duvido que o deixasse passar impune. Mas, como não há maneira de provar…
- Mas afinal o que é isso de Inominável? – perguntou Jenny – Como é que não se consegue determinar se uma coisa está amaldiçoada?
- Através de outros encantamentos, mas é sobretudo porque a maldição do Tormento é das mais difíceis de identificar. – respondeu Klair.
- Resumindo, humm, estás incrivelmente lixada! – concluiu Hannah com um sorriso – Já podemos ir embora?
- Mas o que é que se passa contigo?! – Jenny parecia muito exaltada, para ela era um assunto muito sério, ninguém magoava a sua prima e vivia para contar.
- Hora do clube de encantamentos do sétimo ano dos Hufflepuff – esclareceu Klair – Há uma árvore ao pé da janela da sala onde eles praticam, muito jeitosa para se ver o que se passa lá dentro. O Cedric Diggory costuma ficar com calor no final de uns quantos duelos por isso tira a camisola.
- Pareces muito bem informada. – escarneceu Hannah, vermelha como um pimentão.
- É verdade, mas não me ias apanhar empoleirada numa árvore para olhar para o Diggory. A Janet Willows disse-me, é lá que ela passa as quartas-feiras. Mas não precisas de ter pressa porque cortaram os ramos da árvore por isso já não há maneira de trepar.
Hannah suspirou e afundou-se numa poltrona castanha.
- Continuando… – Klair voltou-se para Patrick – diz aí que nos torna mais susceptíveis a Legilimância? Não é?
- Sim – confirmou ele.
- Sinceramente, nada disto faz sentido – suspirou Jenny, desanimada.
- E não és tu que tens de suportar o castigo… – lamentou-se Klair.
- Acho que simplesmente, vamos ter que aceitar o facto de o Snape não gostar mesmo nada de ti. – concluiu Patrick com um encolher de ombros, a calma com que ele lidava com as coisas era muito enervante. – Não quer dizer que não possas fazer nada contra isso mas…não vale a pena racionalizar comportamentos irracionais. – apressou-se ele a corrigir, perante os olhos zangados das amigas.
- Sabes, Patrick – disse-lhe Hannah solenemente – Às vezes não fazes mesmo sentido nenhum.
Capítulo VI: Olho-Louco
Dezembro 3, 2008
Tarde demais, a porta abrira-se e agora Klair tinha à sua frente o professor mais temido de toda a escola. Subitamente, um frio que nada tinha a ver com as roupas molhadas invadiu-a. Snape não lhe disse nada limitando-se a fazer-lhe um gesto para que ela entrasse. O escritório era todo feito de pedra escura, forrado a livros de capa preta ou castanha e com várias prateleiras recheadas com frascos cheios das coisas mais repugnantes: sapos esventrados, cobras suspensas num liquido verde, globos oculares de um amarelo intenso com pupilas fendidas, centopeias em conserva… No fundo da sala estava uma secretária de madeira escura e a um canto estava um pequena mesa com um barril cheio de miolos de rato ao lado.
- As facas estão no armário do fundo – disse-lhe ele friamente – E, se te vejo usar magia, garanto-te que és expulsa Tullman.
- Não preciso de facas da escola, obrigada – respondeu-lhe Klair sarcasticamente, agora que não estavam na sala de aula já não havia cá Misses nem boas educações. Klair odiava ser tratado só pelo apelido, fazia sentir que não merecia ter nome próprio. – Trouxe as minhas próprias, vêm de Peru, dizem que são tão afiadas que muitas vezes nem se consegue sentir o primeiro corte – acrescentou ela num tom de desafio.
- Menos dez pontos para Ravenclaw pela exibição idiota, Tullman.
Klair virou-lhe as costas e avançou para a mesa no fundo da sala e deitou mãos ao trabalho, felizmente para ela, até gostava de pôr miolos de rato em conserva. Tirou uma pequena caixa preta do saco e abriu-a: lá dentro cintilavam facas de prata pura, com imagens talhadas nos cabos. Para além disso também havia uma grande tesoura brilhante cujas lâminas emitiam um halo prateado e uma adaga com uma pega esculpida em forma de dragão. Mesmo de costas Klair conseguiu sentir o entusiasmo de Snape, não era todos os dias que se via uma coisa assim. Era um conjunto de facas muito antigo que Filomeno Tullman, um homem muito viajado e tio de Klair, lhe trouxera de uma das suas inúmeras viagens. O seu tio tinha-a tentado convencer que lhe conseguira arranjar aquele raríssimo conjunto, um verdadeiro tesouro para qualquer apaixonado por poções, ao vencer um dragão falante que depois lhe indicara o esconderijo daquele tesouro. No entanto, ela sabia perfeitamente que o tio era um homem muito forreta e cobarde que provavelmente ganhara as facas num jogo de cartas.
Klair organizou a sua mesa de trabalho de forma completamente simétrica (ela era um bocado obsessiva compulsiva no que tocava a fabrico de poções e preparação de ingredientes, Jennifer costumava dizer que aquilo não era mais do que outra manifestação da sua “cromice” ) e começou a picar os miolos de rato do barril e a pô-los em vinagre. Conseguira-se despachar em ligeiramente menos de meia hora. Normalmente demoraria certa de dez minutos mas infelizmente, não conseguiu impedir as mãos de tremerem descontroladamente por causa do frio, as masmorras eram um gelo e o facto de Klair estar completamente encharcada não ajudava nada. Não arriscara usar um feitiço, não fosse ela perder mais pontos. E não era Snape que a ia ajudar de certeza.
- Já me posso ir embora? – perguntou Klair mal humorada e a tremer de frio.
Snape levantou os olhos do pergaminho onde estava escrever.
- Portanto… – começou ele calmamente – achas que a punição de uma insubordinação como a tua se limita a vinte minutos a picar miolos de rato?
- Humm… – começou Klair que tinha a certeza que não havia resposta correcta para aquela pergunta – Eu diria que sim, mas de certeza que a resposta é não. – arriscou ela.
- Pois, menos quinze pontos para Ravenclaw – disse Snape com um nota clara de enfado na voz – Não, efectivamente, não. Há uns arquivos que precisam de ser passados a limpo.
Klair suspirou, estava incrivelmente cansada, completamente gelada e desconfortável e ainda tinha que passar arquivos a limpo. Só conseguia pensar em como os colegas estavam a desfrutar da lareira quente e de roupas secas na sala comum. Mas mesmo assim assentiu, não ia dar a parte fraca. Recolheu um monte enorme de pergaminho poeirento e velho e ia buscar novo para voltar os passar a limpo quando foi interrompida.
- Tullman – chamou Snape – usa antes este. – disse-lhe ele estendendo-lhe pergaminho invulgarmente claro com um rebordo preto.
Klair pegou nele e sentou-se na secretária, tirou o tinteiro e a sua pena preferida e começou a escrever. Contudo, estava a meio da segunda linha de um registo de infracções cometidas nas masmorras quando se começou a sentir mal, não era um mal estar físico, mas sim psicológico. Começou com uma ponta de medo, nada de especial. Klair pensou que fosse apenas as sombras fantasmagóricas nas paredes, os frascos viscosos e o aspecto sinistro da masmorra que a faziam sentir assim mas depressa se apercebeu de que algo de muito errado se passava. Quanto mais escrevia maior esse medo se intensificava, espalhou-se desde a parte detrás da sua cabeça e contaminou o resto do corpo, passou de uma leve sensação de terror a pânico absoluto, mas continuou a escrever, o que quer que fosse acabaria por passar. Chegou à segunda página e aí começou a ver imagens passar-lhe diante dos olhos: Jennifer a morrer, a sua família inteira na miséria, Hogwarts em chamas. Abanou a cabeça e conseguiu dissipar a maior parte das visões. Continuou a escrever, que tipo de jogo mental doentio era aquele? Já ia na quarta página quando as paredes das masmorras se tornaram manchas escuras e distantes, o crepitar da lareira deixou de se ouvir. Deixou de conseguir perceber se estava acordada ou dormir: começou a ver coisas que desejava realmente não saber que existiam. Só queria que tudo parasse, no entanto conseguia perceber que a sua pena continuava a arranhar o pergaminho. Klair não soube quanto tempo passou assim; num estado de semi-consciência mas só conseguiu sair quando ouviu a voz de Snape ecoar no fundo da sua mente. Sacudiu a cabeça e afastou a mão da pena, com medo de recomeçar a escrever. A secretária estava coberta de folhas desordenadas, olhou para o relógio suspenso numa das paredes. Era quase meia noite. Tinha estado ali fechada quatro horas. Nem quis saber o que Snape tinha para dizer, pegou no seu saco, meteu lá dentro as suas facas e saiu do gabinete a correr e só parou à porta da sala comum dos Ravenclaw. Ia a responder à pergunta da porta quando tropeçou nalgo bastante volumoso e mole: era Jenny que estava em roupão e que, aparentemente tinha dormido ali, à sua espera
- Au! – queixou-se ela.
- Que foi? – perguntou uma terceira voz
- O que é que se passa?! – Indagou ainda uma quarta.
- Lumus! – imediatamente uma luz saiu da ponta da varinha de Klair e conseguiu ver cinco caras muito sorridentes mas cansadas: Jenny, Sophia, Kelly, Kate e Hannah estavam de roupão a levantar-se uma a uma do chão. – Vocês dormiram aqui? – perguntou ela admirada.
- Não era esse o nosso plano inicial – esclareceu Jenny – Por volta da hora do recolher obrigatório escapulimo-nos e viemos ver se já tinhas chegado. Mas não conseguimos que a porta se abrisse.
- Sim! – queixou-se Sophia – nós sabíamos as respostas mas quando estávamos a responder ela mudava a pergunta porque demorávamos muito tempo. Então decidimos esperar para ver se alguém entrava e assim podíamos entrar também e ver se estavas bem.
- Entretanto entrou a Luna que disse que tinha andado à caça de Nargles – completou Kathryn – E nós perguntámos-lhe se ela podia ir ver se tu já tinhas entrado, ela disse que sim e quando voltou disse que tu ainda não estavas lá dentro. Achámos que devíamos ficar mais um bocado à tua espera, não fosses tu chegar sem um olho ou assim. A Jenny lançou-nos o feitiço de camuflagem que tu lhe ensinaste e sentámo-nos aqui à porta.
- Ja, mas acabámos por adormecer – disse Kelly com o seu sotaque Holandês – e aqui estamos nós, schatje.
- Exacto. Podias chegar ao dormitórios toda partida ou a faltar-te algum órgão interno, não quisemos arriscar… – rematou Hannah.
Klair olhou para as caras sonolentas das amigas, conhecia algumas delas há poucas horas e já estavam dispostas a dormir num chão duro de pedra só para ver se ela estava bem.
- Por isso… – continuou Jenny – humm… como é que correu?
- Bem, não foi nada de especial – mentiu Klair, contudo Jennifer pareceu desconfiada ela conseguia ver sempre quando é que prima a estava a aldrabar.
- Não sei porquê isso não me parece verdade – comentou Jenny.
Kate aproximou-se de Klair, pegou-lhe no braço e elevou-o até ao nível da cara: Klair estava extremamente pálida, a tremer ligeiramente e com suor a correr-lhe pela cara que nada tinha a ver com a corrida que dera até chegar à sala dos Ravenclaw.
- O que é que ele te fez? – perguntou Sophia com um aspecto preocupado.
- Nada! – voltou a mentir Klair, baixou o braço e a sua cara voltou a envolver-se na penumbra.
- Klair Tullman! – disse Jennifer elevando um pouco a voz e encostando a prima a uma parede com um ar ameaçador – Eu, ao contrário de ti, não tenho respeito nenhum pela sagrada instituição que é a família, por isso, se não me dizes o que é que aquele filho da mãe te anda a fazer eu juro por Merlin que te dou a maior carga de pancada que alguma vez levaste.
Klair engoliu em seco, aquilo era basicamente admitir que ele a afectava mas perante os punhos fechados da prima, não teve outro remédio senão falar.
- Sinceramente… nem eu sei – confessou Klair – não faço a mínima ideia.
Contudo, contou a Jenny tudo o que se passara e o que acontecera assim que começara a escrever. Quando acabou todas pareciam extremamente chocadas, Jenny recuou e largou Klair.
- Devias falar com o director – aconselhou Kelly – Em Nederland
isto não era tolerado.
- Ah, não – opôs-se Klair – Nada disso, nem sei ao certo o que é que o Snape me anda a fazer quanto mais denunciá-lo. Para além disso, duvido que o Dumbledore fosse acreditar em mim.
- Devias fazer alguma coisa! – gesticulou Jenny – Tipo… hmm… sei lá! Transformá-lo numa enorme papa viscosa ou assim.
- Não, não lhe vou dar essa satisfação, é exactamente isso que ele quer que eu faça. Bem, talvez não exactamente isso, mas tu percebes a ideia.
- Mas…!
- Mas nada, Jenny – barafustou Klair – É assim, primeiro descobre-se o que é que se anda a passar e depois pensa-se na vingança, ok?
Jennifer pareceu pouco entusiasmada com o plano, por sua vontade ia já para as masmorras assassinar Snape de uma forma horrível. Esperar não era coisa que lhe agradasse, mas lá concordou.
- Está bem, mas amanhã à tarde vamos à biblioteca ver o que diabo se anda a passar.
- Pronto, se te faz feliz… – acedeu Klair
- Não é questão de me fazer feliz ou não, simplesmente não tolero que te tratem assim. Agora vai lá dormir, não estás nada com bom aspecto.
- Ok, então até amanhã – despediu-se Klair com um bocejo – Temos Defesa Contra as Artes das Trevas, não é?
- Sim – respondeu Kate – Mas não vi o professor sentado ontem à noite no banquete.
- Talvez esteja doente – aventurou-se Sophia – Ou talvez só chegue amanhã, em Hogwarts nunca se sabe.
- És capaz de ter razão – concordou Kelly – Mas vamos para a cama, não queremos ser apanhadas, pois não?
Despediram-se umas das outras e foram em direcções separadas, para os seus dormitórios. Nessa noite nenhuma delas dormir descansada; Jennifer estava demasiado furiosa e o seu sono tinha-se desvanecido assim como o de Kelly, Kathryn e Sophia. Klair deitou-se na sua cama de dossel e fitou o tule que esvoaçava acima da sua cabeça, pela primeira vez tinha medo de fechar os olhos, era como se tivesse acabado de ver um filme de terror particularmente assustador e agora a única coisa que conseguia ver eram imagens arrepiantes, repetidas até à exaustão. Virou-se de um lado para o outro, mas o sono não vinha, acabou por dar o caso por perdido, foi-se sentar na reentrância que havia antes da janela do seu quarto, que formava uma espécie de cova na parede bastante acolhedora, e pôs-se a contemplar a noite. Klair nunca achou que as pessoas se dividissem apenas nas boas e más, toda a gente tem algo de pérfido a espreitar nos cantos mais escondidos da mente e mesmo os corações mais gelados conseguem sentir uma ponta de compaixão mas talvez, pela primeira vez na vida, ela tivesse conhecido uma pessoa a quem essas regras não se aplicavam. Segundos antes de adormecer, Klair decidiu que, nem que a matassem ia vencer Snape no seu próprio jogo mental retorcido.
- Klair? – chamou uma voz grave – Acho que devias considerar seriamente a hipótese de te levantares.
- Acho que alguém vai levar uma séria carga pancada… – murmurou ela entre dentes, Klair Tullman não era definitivamente uma pessoa madrugadora e como na noite anterior só tinha conseguido adormecer por volta da uma hora da manhã só tinha umas míseras seis horas de sono, o que apenas contribuía mais para a sua rabugice matinal.
- Acorda!! – a voz tinha-se intensificado.
Klair abriu os olhos, o sol da janela atingia-lhe os olhos com força, tinha adormecido no nicho junto na janela, tirou o edredão de cima da cabeça e, assim que se habituou à luz, reconheceu o dono da voz: era Patrick.
- Mas o que diabo estás aqui a fazer? – perguntou ela – não há um feitiço qualquer que impede rapazes de entrarem aqui.
- Sim – respondeu ele indiferente – mas não há nada que não se possa iludir. Para além disso a Luna achava que tinhas sido raptada por um espírito feito de fogo, achei que era melhor vir ver como é que estavas. Espero por ti lá em baixo, temos transfiguração daqui a quinze minutos.
Klair esperou que Patrick se fosse embora para se levantar, só agora é que reparava quão sinistro era aquele rapaz. Decidiu preocupar-se com isso mais tarde, vestiu-se e desceu. A sala comum estava praticamente vazia, apenas Luna Lovegood e Patrick lá estavam, à espera de Klair.
- Sobreviveste? – perguntou Luna com um olhar esgazeado.
- A quê? – perguntou Klair confusa, sem perceber se ela estava a falar do castigo do Snape ou dos espíritos de fogo.
- Ao Snape – sussurrou ela num tom conspirativo – Ouvi dizer que foi bastante mau.
Klair engoliu em seco, a esta altura já toda a gente devia saber que ela tinha sido uma cobarde medrosa.
- Não, não foi assim muito mau – mentiu ela – pensei que fosse pior.
Durante longo do caminho até ao Salão, Luna não parou de fazer perguntas e de explicar teorias conspirativas estranhas por isso foi quase um alivio para Klair chegar à mesa do pequeno almoço, mesmo tendo sido recebida de forma demasiado espalhafatosa por parte das amigas, que tinham ficado exageradamente preocupadas com o facto de ela se ter atrasado. Depois lhe assegurar que não estava permanentemente traumatizada lá conseguiu comer uma torrada e convencê-las a ir andando para a aula.
Jenny sentou-se, como de costume, ao lado de Klair, nos lugares de trás para conseguirem conversar melhor.
- Tens a certeza de que estás bem? – perguntou-lhe Jenny pela enésima vez, tentando transformar um canário um canário num apito sem sucesso.
- Sim, estou óptima, maravilhosa, ok?! – respondeu-lhe a prima impaciente enquanto transformava o seu canário num bonito apito prateado com ornamentos à volta.
- Olha que não pareces – insistiu Jenny – Ainda estás pálida e pareces um pouco ansiosa – agora o seu pássaro tinha um bico anormalmente grande e metálico.
- Não, a sério, estou bem. Até já tenho uma vingança planeada e tudo. – continuou Klair com toda a calma, indo multiplicando os canários e transformando-os em apitos de diferentes tamanhos e feitios.
- Ahah! Assim já falamos! – festejou Jennifer – Esta é que é a Klair que eu conheço! O que é lhe vais fazer? Transformá-lo num sapo com chifres?! Uhh, uhh, já sei! Já sei! Vais arranjar uma forma de fazer o Snape a beber veritaserum e depois vais obrigá-lo a revelar os seus segredos mais embaraçosos!
- Não e, faz-me um favor, vai-te tratar.
- Não, não! Já sei, vais fazer Amortencia e fazê-lo apaixonar-se pela Macgonagall!
- Miss Tullman, Miss Blomwood! – gritou-lhes a professora – Na minha aula fala-se inglês.
Para ninguém perceber o que diziam, Jenny e Klair tinham começado a falar português. Uma táctica mais útil do que qualquer feitiço de bloqueio de som.
- Desculpe. – respondeu Klair mudando logo de idioma.
- Menos cinco pontos para cada uma – declarou a Professora Macgonagall.
- Mas…! – começou Jenny.
- E! – interrompei-a a professora – Mais dez pontos para Ravenclaw pelos belíssimos apitos, Miss Tullman e mais cinco para Grynffindor pelo trabalho… algo peculiar, mas muito satisfatório, Miss Blomwood – continuou Mcgonagall olhando para o apito de Jenny que estava a correr desenfreadamente pela mesa com umas patinhas muito pequeninas. Mas se vos ouço falar de mim outra vez ficam de castigo! Por esta escapam, até porque creio que a Miss Tullman não precisa de mais castigos.
- Mas TODA a gente sabe? – sussurrou Klair ao ouvido de Jenny enquanto a professora de afastava.
- Nããããoooo – sossegou-a Jenny – Mas mais importante, como é que ela sabia que estávamos a falar dela?
- Acho que Macgonagall dá para perceber em qualquer língua. – respondeu-lhe Klair cheia de ironia.
- Ah pois realmente… Mas olha lá, o que é que vais fazer para te vingares?
- Estou a pensar nalguma coisa…ora, relacionada com Legilimância
- Legilimância? – perguntou uma voz atrás delas, era Patrick.
- Sim, foi o que ela disse – respondeu Jenny algo impaciente – Mas não sei como é que isso te vai ajudar na vingança.
- Ora, cara Jennifer, por vezes a tortura psicológica é melhor que a física.
- Ela tem razão, mas é preciso ser um Oclumes muito poderoso para se conseguir penetrar na mente de uma pessoa e causar-lhe distúrbios, como é que tencionas fazer isso? – interrompeu Patrick
- Bem, primeiro, sempre tive jeito com Oclumância, o meu primo Jeremy ensino-me umas coisas o verão passado, ele é um Inominável no ministério. Segundo, eu não quero causar “distúrbios” por vezes a mais simples das informações pode ser perigosa.
- Está bem, não duvido que sejas habilidosa nessa área mas o Snape é um Oclumens extremamente poderoso. – contradisse Patrick.
- Como é que sabes isso? – indagou Jenny suspeita.
- O que é que tens a ver com isso?!
- Hey, hey, calminha pessoal. Sinceramente não sei, mas hei de conseguir, estejam descansados, eu terei a minha vingança.
De repente ouviu-se ao longe a campainha para a saída, toda a gente começou a arrumar e a conversa de Klair, Jenny e Patrick foi interrompida.
- O que é que temos a seguir? – perguntou Jennifer enquanto caminhavam pelos corredores.
- Defesa Contra das Artes das Trevas – elucidou Klair.
- Mas afinal, já alguém alguma vez viu o professor? – continuou Jennifer, a ausência do Professor da mesa principal no Salão era bastante suspeita, mas nada lhes indicara que ele estivesse a faltar.
- Sei lá, se calhar é um excêntrico qualquer como a Trelawney; vive numa torre qualquer do castelo e só sai para comer.
- Au contraire! – disse uma voz atrás delas – Nós já tivemos aulas com ele e as semelhanças entre o professor Moody e a velha Trelawney são tantas como as entre um ouriço cacheiro e o Dumbledore.
- Ele sabe mesmo! – completou outra voz muito parecida com a anterior, eram os gémeos Weasley.
- Sabe o quê? Ó espertinho?! – perguntou Sophia Baxtor que tinha acabado de surgir, vinda de um outro lanço de escadas.
- Isso agora… – respondeu George num tom de mistério. – já vão ver e, é melhor irem entrando, o Moody não gosta de esperar.
A sala de Defesa Contra as Artes das Trevas era, tal como todas a divisões do castelo: fantástica. No tecto estavam pendurados vários esqueletos de diversas espécies de criaturas mágicas, até havia um que parecia pertencer a um pequeno dragão. Felizmente, o professor Moody ainda não tinha chegado, ainda se estavam todos a sentar e, numa carteira perto da janela, estava Harry sozinho. Jenny, viu-o pelo canto do olho; era agora ou nunca.
- Klair – chamou ela baixinho – Não te importas de te sentares ao pé de outra pessoa?
Ela pareceu um pouco surpreendida com a pergunta, afinal, Jennifer sentava-se ao pé dela em todas as aulas.
- Sim, tudo bem. Mas, o que é que vais fazer?
- Vou deixar de ter medo. – respondeu ela com um sorriso – Nada de mais oportunidades perdidas, nem de talvez ou de e ses.
Klair ficou de boca aberta a ver a prima afastar-se e sentar-se ao pé de Harry, quando Jenny começava a usar frases ambíguas e profundas, era sinal que devia começar a preocupar-se a sério. Encolheu os ombros e sentou-se ao pé de Patrick.
Para o que era costume estavam todos muito calados, normalmente haviam aviões de papel enfeitiçados a voar por toda a sala, origamis que se mexiam e, claro, muita conversa pelo meio. Naquele dia, contudo, estavam todos invulgarmente quietos e calados. Em Hogwarts as noticias corriam depressa, e a maneira peculiar de ensinar de “Moody Olho-Louco” tinha corrido o castelo inteiro, a expectativa que se tinha criado à volta dele era muito grande, agora a sala toda fervilhava de entusiasmo.
Ao principio só se ouviu um leve “clanck” que se foi tornando mais alto até que um homem de aspecto tenebroso surgiu no cimo de umas escadas ao fundo da sala. Tinha a cara completamente desfigurada, faltava-lhe um bom bocado do nariz e aparentava só ter uma perna pois apenas uma era feita de carne, enquanto a outro parecia ser feita de ferro. No entanto, o mais arrepiante eram os seus olhos, um deles era negro, pequeno e estava rodeado de cicatrizes enquanto o outro parecia estar preso à cara por uma espécie de pala, era de um azul brilhante e não parava de se movimentar de um lado para o outro.
- Guardem essas porcarias, não vão precisar delas – disse Moody numa voz rouca, apontando para os manuais dos alunos. – Hoje – continuou ele sem demoras – Vou-vos falar das maldições imperdoáveis. Alguém me sabe dizer quantas há? – perguntou ele ignorando os murmúrios tensos dos alunos.
Imediatamente as mãos de Klair, Patrick e Hermione disparam para o ar.
- Sim, tu aí, que nunca ouviste falar de um pente, diz lá – disse Moody apontando para Klair.
- Hm – começou ela hesitante – são três.
- Sim e porque é que se chamam assim? – perguntou ele de costas, gatafunhando no quadro.
- Porque a sua utilização é expressamente proibida, quem as usar tem direito a um bilhete só de ida para Azkaban – completou Patrick.
- Nem eu diria melhor! – congratulou-o Moody. – As pessoas acham que vocês são muito novos para ver estas coisas, mas eu discordo por isso… – disse o professor tirando uma enorme aranha de um frasco que estava na sua secretária – quem é que me diz a primeira, para eu a testar na nossa voluntária.
- A maldição Imperius… – ouviu-se Hermione dizer
- Sim, sim, muito bem – disse Moody com um olhar louco, apontou a sua varinha para a aranha e pronunciou – Imperio!
A seguir, a criatura voou por toda a sala, completamente submissa ao poder do professor.
- Talentosa, não é? – perguntou ele à turma – posso obrigá-la a fazer o que eu quiser, afogar-se, atirar-se pela janela, agarrar-se à garganta de um de vocês… Bem, quem é que me diz a próxima? – Moody varreu a sala com o olhar, e estancou em Klair, que estava extremamente incomodada com aquilo tudo, torturar animais em público não era bem do que ela estava à espera – Que tal tu, ó alérgica a escovas?
- Bem… há aquela… – começou Klair a medo – a maldição da tortura.
- Preciso de um nome, esfregona.
- A maldição Cruciatus – disse Klair baixinho. – a sensação descrita pelos sobreviventes é de milhares de punhais incandescentes a perfurar o corpo…
- Ah, sim. É muito chatinha, essa. Crucio! – disse ele apontando a varinha ao bicho.
A aranha começou então a lançar uns guinchos horríveis e a contorcer-se violentamente.
- PARE! – gritou Jenny levantando-se num salto, para grande alivio de toda a gente.
- Então… – disse Moody pondo a aranha na mesa de Jennifer de Harry– diz-me tu a última.
Jenny abanou a cabeça com força, ela conhecia-a, mas não era capaz de ser responsável pela morte do bicho indefeso.
- Então… Avada Kedavra!
Um flash verde saiu da varinha do professor e, depois de um ruído de asas a bater sobrevoar a sala, a criatura caiu imóvel na secretária. E aí Harry soube, soube que aquele som tinha sido a última coisa que os seus pais tinham ouvido: o leve bater das asas da Morte. Antes de caírem mortos no chão, com uma expressão de horror no rosto. Olhou para a janela e tentou afastar a torrente de emoções que o possuíam. No entanto, apenas conseguiu obter foi quando sentiu a mão de Jenny agarrar na sua por baixo da mesa. Ela olhou-o nos olhos mas, sem dizer nada, ele soube que ela compreendeu e que ia ficar tudo bem.
Passaram o resto da aula a copiar apontamentos para o caderno sobre cada uma das maldições. Já estavam no terceiro parágrafo sobre a maldição Imperius quando Klair sentiu uma cotovelada nas costelas, era Patrick.
- Olha – sussurrou-lhe ele – se quiseres eu posso ajudar-te com a Legilimância.
- A sério?!
- Sim, eu conheço uma sala que está sempre vazia. Podemos treinar lá esta noite.
- Ok, parece-me óptimo. Obrigada, falamos melhor lá fora.
Capítulo V: História e Adivinhação
Novembro 14, 2008
À porta da sala da aula de história da magia estava Jenny com um olhar preocupado.
- Oh Klair! – guinchou ela assim que a viu – estava tão preocupada contigo. Depois daquilo que aconteceu na aula de poções pensei que te tivesses ido atirar ao lago ou assim. A sério, quando o Harry disse que ele era uma besta pensei que ele fosse bastante mau mas não desta maneira. Que… (e chamou-lhe uma coisa que fez Klair dizer: Jenny!!).
As aulas de história de magia eram exactamente como Harry tinha dito a Jennifer que seriam: incrivelmente aborrecidas. Ninguém conseguia manter-se acordado durante as aulas. Ron e Harry tinham a cabeça deitada entre os braços e nem se mexiam. Klair ainda tentara concentrar-se no que o velho professor fantasma dizia mas não conseguiu, acabou por enfeitiçar a sua pena para que ela tirasse apontamentos sozinha. Jenny pedira emprestado um Profeta Diário e agora estava muito entretida a ler. Apenas duas pessoas naquela sala tomavam minimamente atenção àquela aula: Hermione (que não conhecia o feitiço de Klair, embora esta última se tenha oferecido para lho ensinar) e Kelly Maddox, a Veela. Seria de esperar que tivesse uma personalidade muito extrovertida mas na verdade era o oposto. Sentara-se sozinha numa das pontas da sala, fazendo um esforço para apanhar tudo o que o professor Binns dizia.
Jenny não tomara atenção a nenhum destes pormenores, estava demasiado chocada com uma notícia que acabara de ler no Profeta Diário.
“(…) o ministério da magia continua sem se alongar em declarações no que toca aos acontecimentos do passado mês de Agosto. O aparecimento da Marca Negra e os abusos sofridos por muggles na Taça de Quidditch causou pânico geral e ninguém parece estar a informar o público, fala-se até na possibilidade de Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado estar de volta, no entanto Fudge garante, numa das únicas entrevistas que deu até agora, que tal não aconteceu nem acontecerá. A presença de Harry Potter, o rapaz que sobreviveu, na Taça também deixa espaço para especulação, terá sido coincidência? Ou terá sido um ataque ao único sobrevivente da ira de Quem-Nós-Sabemos?
O primeiro funcionário do ministério a prestar declarações foi Artur Weezelby e a única coisa que a nossa repórter conseguiu apurar foi uma curta e concisa frase: “Não quero saber”. Será que o nosso governo está em crise? Será que está na altura duma profunda reforma? A resposta para esta e muitas outras questões com Rita Skeeter na página 12 (…)”
Jenny deu uma cotovelada a Harry que parecia estar a ressonar baixinho e apontou para a notícia. Ele leu-a rapidamente e depois acordou Ron que já se estava a babar e estendeu-lhe o jornal com um ar alarmado. Aparentemente o tal Artur Weezelby referido no jornal era, na verdade, Arthur Weasley, o pai de Ron.
Klair parou de observar a sua pena a escrever e viu que alguma coisa se passava, aproximou-se de Jenny e perguntou-lhe o que se passava. Por sua vez a prima explicou-lhe tudo ao ouvido.
- Então deixa-me ver se compreendi – começou Klair – Esses tais Devoradores da Morte, os seguidores de Voldemort – Ron estremeceu tanto que parecia estar a ter convulsões, ignoraram-no e Klair continuou - apareceram na Taça de Quidditch, torturaram uma data de muggles, conjuraram a Marca Negra, foram-se embora e acabaram por culpar uma elfo doméstico com a varinha do Harry?
- Não é bem isso – corrigiu Harry – Nós achamos que os Devoradores da Morte estavam só a divertir-se um bocado, o que os fez ir embora foi o aparecimento da Marca Negra.
- Então e onde é que o elfo entra nesta história toda? – perguntou Kate, que estava sentada ao lado esquerdo de Harry, confusa.
- A elfo chama-se Winky – respondeu Hermione – e trabalhava para o Mr. Crouch, o homem que nos falou das regras de segurança do torneio.
- Então uma elfo chamada Winky que trabalha para um homem num cargo muito alto no ministério roubou a varinha ao Harry e conjurou a Marca Negra? – perguntou agora Sophie que também tinha estado a ouvir, ainda mais confusa – desculpem lá, isso não faz muito sentido.
- Não é nada disso! – continuou Harry, impaciente – Os Devoradores da Morte foram afugentados pela marca negra que foi conjurada por alguém que estava na mata, eu ouvi uma voz vinda de lá. Depois de o ter feito deve ter dado a varinha, que eu tinha perdido, ao elfo ou então deixou-a no chão.
- Mas qual é o interesse de conjurar a Marca se o Voldemort…pára com isso Ron! Ele já está morto. – insistiu Klair.
Harry engoliu em seco, não sabia se Jenny, Klair, Sophie e Kate eram de confiança. Só as conhecia há umas 12 horas, Sophie há menos de 3 e Katie há apenas uns minutos. Mesmo assim decidiu que iria ser completamente honesto com elas. A ligação surpreendentemente forte que tinha com Jenny serviu-lhe de força e ofereceu-lhe alguma segurança: se ela acreditava que Sophie e Klair eram de confiança então ele também.
- É assim, o Dumbledore está convencido de que ele regressará. Eu já o vi, mas não estava completamente vivo, estava a viver à custa de outra pessoa, como um parasita e é só uma questão de tempo até ele regressar completamente. E… – Harry fez uma pausa e olhou em volta – acho que ele está a ficar mais forte. No início de Agosto eu tive um sonho em que Voldemort falava mas não era bem homem, mas parecia tão real. E quando acordei a cicatriz doeu-me e da última vez que isso aconteceu, Voldemort encontrava-se em Hogwarts.
Jenny abafou um pequeno guincho com as mãos.
- Não te preocupes – sossegou-a Harry – Era impossível Voldemort estar à porta da casa dos meus tios naquela altura.
- Tu nunca nos contaste isso – acusou Ron
- Sim – confirmou Hermione – devias falar com o Dumbledore.
- Não vou aborrecê-lo com uma coisa destas. Já viste o que era se eu fosse falar com ele cada vez que tivesse um sonho? Era do estilo: desculpe incomodá-lo Sr. Director mas eu hoje sonhei que estava a ser perseguido por um enorme cone de gelado, acha que Voldemort está próximo?
Klair, Jenny e Sophie começaram-se a rir mas Ron e Hermione tinham um olhar tão sério que acharam que parecia mal, por isso, calaram-se.
- Ouve, Harry – disse Jenny tentando tranquilizá-lo – se Dumbledore o diz, é muito provável que volte. A Klair sempre me disse isso: “Ficar sem poderes não é a mesma coisa que morrer”. Mas de certeza que, amanhã, não será a véspera desse dia.
Harry fitou os olhos azuis de Jenny, nunca ninguém lhe tinha dito as coisas assim. Sim, ele sabia que Voldemort acabaria por voltar, tudo apontava para que assim o fosse, mas para quê preocupar-se com isso agora? Ele devia era soltar-se, divertir-se enquanto podia e não viver assombrado pelo regresso de Voldemort.
- Meninos… – disse a voz monocórdica do professor Binns – já podem sair.
Harry, Jenny, Ron, Klair, Sophie e Katie saíram juntos seguidos por Kelly Maddox que saiu a correr com os olhos pregados ao chão sem falar com ninguém. Harry e Ron seguiram-na com olhar, com uma expressão extasiada. Jenny ficou vermelha de tão furiosa que estava, só não partiu atrás de Kelly para lhe dar um valente murro na cara porque Klair lhe sussurrou ao ouvido que ela era meia Veela e que a culpa não era dela.
- E o que é que se passa com a Miss-perfeição-famosa? – murmurou Sophie ao ouvido de Kate.
- Não sei – confessou-lhe ela – talvez a fama lhe tenha subido à cabeça e o cérebro dela tenha explodido.
Katie riu-se, Jenny já tinha ouvido dizer que ela tinha um sentido de humor espantoso e que adorava pregar partidas às pessoas, um gémeo Weasley versão feminina. As histórias sobre as proezas de origem duvidosa de Kathryn Simpson eram imensas, os seus alvos preferidos eram os professores menos atentos, o Filch e os alunos do primeiro ano. Kate tinha também uma estreita cumplicidade com Peeves, o poltergheist da escola. Poltergheist quer dizer espírito barulhento. E Peeves era mais que um fantasma e menos que um humano. Tinha a estatura de um homenzinho baixo com um grande bigode retorcido e vestes de cores garridas. Passava o tempo todo a partir coisas, a atirar balões de água aos alunos, a encher os buracos das fechaduras com pastilha elástica e a tentar arranjar uma maneira de cobrir Argus Filch com alcatrão e penas. Peeves só temia o Barão Sangrento, o fantasma de Slytherin, que estava coberto de correntes e sangue. E desrespeitava tudo e todos, apenas tecia uma espécie de consideração pelos gémeos Weasley e, mais recentemente, por Kathryn Simpson, a nova “arruaceira-mor”. E agora que a jovem Kate tinha descoberto um feitiço novo, enterrado num livro antigo qualquer chamado Levicorpus, ninguém podia espirrar sem que se encontra-se pendurado pelo tornozelo.
- Então o que é o teu pai faz no ministério? – perguntou Sophie a Ron entre garfadas de bife e puré.
- Qualquer coisa relacionada com tralha dos muggles e artefactos perigosos – respondeu Ron com a boca cheia.
- “Tralha muggle” – repetiu Klair – Uau, que específico.
-Tu cala-te – retorquiu Ron bastante alterado – Andas para aí a comer essas porcarias.
- Bem bom! Soja à bolonhesa é a melhor coisa a seguir a exames bem sucedidos – e, enquanto dizia isto, passou um garfo cheio de soja pela cara enojada de Ron e comeu tudo com uma grande expressão de regozijo.
- És nojenta – acusou Ron.
- Tu também – respondeu Klair com um sorriso. – ao menos não como vacas esquartejadas.
- Meninos!– disse Jenny, que tinha estado muito embrenhada numa conversa com Harry – controlem-se!
Ron fez uma careta a Klair e voltou a sua atenção para o prato de comida à sua frente.
- Hárpias arquejantes! – guinchou Hermione – Vamos chegar atrasadas a Runas Antigas! Anda lá Klair.
- Sim – concordou ela – E vocês deviam ir andando para Adivinhação. É que fica lá em cima no alto de uma torre e demoram pelo menos dez minutos a lá chegar.
Harry anuiu, puxou Jenny pela mão e foram andando para a aula de Adivinhação. Subiram as escadas íngremes da torre norte até chegarem a um pequeno patamar apinhado de alunos que esperavam pela professora. De repente, vinda de um alçapão no tecto apareceu um enorme par de olhos rodeados por uns óculos fundo de garrafa.
- A minha Visão diz-me que é melhor entrarem um pouco mais cedo hoje, um de vocês poderá ser atingido na cabeça por uma laje solta se ficarem aí durante muito mais tempo. – disse a voz que pertencia aos enormes olhos esbugalhados.
Uma escadinha de aspecto frágil e decrépito desceu do alçapão depois da professora desaparecer. Harry, Ron, Jenny, Sophie e Kate esperaram que o resto dos alunos subisse e treparam pela escadinha. O andar de cima era constituído por uma grande sala circular abafada por um espesso fumo perfumado vindo de uma lareira no fundo da sala, o ar estava tão saturado que se sentiram sonolentos assim que entraram. Em vez de carteiras, haviam puffs espalhados por toda a sala e cadeiras decoradas com rendas hediondas e umas coisas desengonçadas que pareciam mesinhas de café. As paredes estavam pintadas de carmesim e havia uns quantos armários antigos espalhados pela sala. A professora Trelawney era uma pessoa estranha; tinha um olhar esgazeado, estava vestida com uma longa túnica castanha, tinha vários xailes sobrepostos que lhe caiam desajeitadamente no corpo e vários colares de missangas com um aspecto sujo.
Jenny sentou-se ao lado de Harry perante os olhares de reprovação de Ron, enquanto Sophie e Kate ficaram juntas. Jenny viu pelo canto do olho que Kelly Maddox, se sentara, muito a medo, ao lado de um rapaz muito louro e magro, com um rosto fino.
- Vejo uma cara nova – disse logo a professora apontado com um longo dedo magro para Jenny – a minha Visão diz-me que és estrangeira.
- Hmm… sim, sou – confirmou Jenny.
A professora pareceu extremamente feliz por estar correcto, mas logo a seguir se recompôs.
- Eu sou de… – começou Jenny
- NÃO! – gritou a professora – A minha Visão está a transmitir-me informações. A minha Visão está-me a dizer que és… hmm… europeia!
- Sim, sou – anuiu ela; aquilo era, por falta de expressão melhor, extremamente parvo. Até o seu cão era capaz de perceber que ela era europeia.
- Sim…sim… – murmurou a professora como se estivesse num profundo transe – a minha Visão diz-me também que vens de…Itá… não, não, Alema… não, também não é isso…
- Se calhar o que a sua “visão” queria dizer era Portugal? – perguntou Jenny que já estava a ficar farta daquela parvoíce.
- Sim! Exactamente! Mas onde é que… esqueça, esqueça, era exactamente isso, Portugal. A minha Visão nunca me falha.
A seguir a professora envolveu-se num enorme discurso completamente sem nexo sobre Tarot, folhas de chá e bolas de cristal. Talvez tivessem sido os vapores inebriantes misturado com o calor da sala, mas o que é facto é que ninguém se conseguia manter concentrado. Do outro lado da sala, tanto Sophie como Kate tinham deitado a cabeça em cima dos braços e começado a fixar o vazio. A voz monótona e monocórdica da professora começou a tornar-se cada vez mais distante até que nada restava para além dum leve sussurro, a última coisa que Sophia viu antes de adormecer foi um besouro a esvoaçar no parapeito da janela.
De repente ouviu-se o som roufenho da campainha da escola. Toda a gente que tinha estado intoxicado pelos vapores da sala acordou dum sonho profundo. Os alunos pegaram nas suas malas e começaram a descer pelo pequeno alçapão.
- E não se esqueçam! – gritava-lhes a professora Trelawney à medida que eles iam descendo – Para a semana quero a leitura das folhas de um litro de chá!!
A seguir às aulas, Sophie, Jenny, Ron e Harry seguiram para a sala comum de Gryffindor enquanto Kate desceu até à cave, onde ficava a sala comum dos Hufflepuff.
- Carpe Omnius – disse Ron ao retrato que ficava à porta da sala comum e este balançou para a frente, deixando um enorme buraco à vista.
Jenny foi-se instalar num cadeirão de veludo vermelho, Harry e Ron sentaram numa secretária a discutir Quidditch com George e Fred Weasley. Sophie subiu até ao dormitório das raparigas.
Assim que Sophia desapareceu pelas escadas que davam para o segundo andar, Jennifer ouviu George a dizer a Ron:
- Dentro de momentos vais ver uma coisa que é bastante comum mas que poucos rapazes alguma vez viram.
- O quê? – indagou Ron cheio de curiosidade.
- Uma rapariga realmente passada – respondeu-lhe Fred.
George recostou-se na sua cadeira e contou:
- Em 1, 2…3
De repente um grito eclodiu do dormitório das raparigas.
- GEORGE WEASLEY!!
Sophie desceu do andar de cima visivelmente furiosa.
- TU! – disse ela com um tom acusador apontando com a varinha para George. – Foste tu que puseste bombas de estrume na minha cama, não foste seu idiota?!
- Bem… – começou George – como é que eu vou pôr isto?…Sim.
- E TU! – Sophia virou-se para Fred que se tinha estado a rir – Tu também tens culpa!!
- Tens provas? – perguntou ele
Sophie estava tão chateada que nem pensou no que estava a fazer, apontou a varinha para George, ouviu-se um estampido, uma nuvem de gás verde elevou-se no ar e quando desapareceu o gémeo tinha duas antenas castanhas a saírem-lhe da cabeça.
- Era para te transformar numa barata – disse ela, triunfante – Mas só te faltavam mesmo as antenas.
-Estou deveras impressionado – disse o George com sinceridade – Afinal não sabes só pendurar as pessoas no ar pelo tornozelo.
- Sim – concordou Fred – agora quase que mereces o nosso respeito, anda lá George, vamos à enfermaria tirar-te essas coisas da cabeça.
- Para quê?! – perguntou ele admirado abanando a cabeça fazendo as antenas balançar dum lado para o outro – São tão fixes!
- Realmente tens razão, podes-me pôr umas a mim? – perguntou Fred a Sophie.
- Ahhrgghh – resmungou Sophia enquanto virava as costas aos gémeos e voltava ao dormitório.
George fez aparecer um lenço com a varinha e começou a polir as antenas recentemente adquiridas. Ron, Harry e Fred explodiram a rir.
- Que foi?! – perguntou ele – Tenho transfiguração a seguir, não quero que a Mcgonagall me apanhe com as antenas sujas.
Desta vez nem Jenny se conteve; riu-se a bom rir e só parou passada uma boa meia hora. Quando finalmente conseguiram parar, decidiram surripiar comida do Salão e ir fazer um piquenique à beira do lago, mas primeiro tiveram de ir buscar Klair e Hermione, que tinham estado a ter Runas Antigas e Kathryn, que estava na cave. Desceram todos as escadas (incluindo os gémeos Weasley e uma Sophie muito ressentida) e Jenny ofereceu-se para ir chamar Klair e Hermione enquanto Sophia ia à cave.
Jennifer atravessou vários corredores e subiu uma grande quantidade de escadas que se moviam até chegar à porta da sala de Runas Antigas onde encontrou Klair e Hermione muito entretidas a falar com um rapaz alto, moreno de pele, bem parecido, muito direito, de cabelo negro, com um olhar de quem tinha algo a esconder e um mistério que o envolvia como uma fina camada de nevoeiro.
- Hmm… olá – cumprimentou-as Jenny interrompendo uma conversa que parecia ser sobre artefactos antigos com propriedades mágicas.
- Olá! – saudou Klair bem disposta – Runas Antigas é espantoso! Realmente fascinante. Olha, este é o Patrick, Patrick Reeves. É nosso colega de Runas Antigas. E esta é a minha prima Jennifer.
- Prazer em conhecer-te – cumprimentou-a ele com um aperto de mão firme.
- Igualmente – disse Jenny nervosamente, o desconhecido não lhe inspirava muita confiança, havia qualquer coisa no seu olhar, na sua expressão, por momentos, Jennifer pensou ver um brilho escarlate de maldade atravessar-lhe os olhos. Mas depressa afugentou essa ideia e se virou para Klair e Hermione – Olha, eu, o Harry, o Ron, os gémeos, a Sophie e o pessoal todo estávamos a pensar em ir para o lago jantar, o que achas?
- Acho óptimo – comentou Klair, falando de seguida para Patrick – Também queres vir?
- Se não se importarem… adoraria! – respondeu ele com um sorriso amável.
Jenny não concordou lá muito com aquilo, mas como era má educação não convidar o rapaz, já que tinha falado com Klair mesmo à frente dele. Lá assentiu e foram todos juntos para os jardins da escola. Quando lá chegaram já todos se tinham instalado, os gémeos, como eram mais velhos tinham feito aparecer uma enorme toalha de piquenique ao xadrez e em cima desta encontrava-se uma quantidade enorme das mais deliciosas iguarias que se podia imaginar: rosbife, costeletas, puré de batata, arroz, batatas assadas, salsichas e, como não podia deixar de ser, crepes de legumes, pasteis de tofu e seitan, hambúrgueres de algas e raviolis de espinafres e queijo.
- Olá pessoal – disse Klair assim que se sentou ao lado de Kate que se estava a servir de sumo de abóbora gelado. – este é o Patrick.
O rapaz retribuiu os acenos amistosos de Ron, Harry e dos gémeos e sentou-se na relva ao lado de Hermione. De repente viram um pequeno vulto a descer a pequena encosta que dava para os jardins: era Hannah, a rapariga Albanesa que vinha seguida de Kelly Maddox. Fred Weasley assobiou muito alto e gritou:
- Hey!! Venham juntar-se a nós!
Era óbvio que o rapaz apenas queria a companhia da belíssima Veela, pouco ou nada lhe interessava Hannah, mas depressa descobriu quão divertida ela podia ser. Kelly sentou-se muito timidamente ao lado de Sophie apesar dos esforços de Ron para que esta se sentasse ao lado dele. Passaram um final de tarde muito agradável; o sol punha-se no horizonte, o ar adocicado e cheio daquela luz própria do entardecer enchia-os e apenas se ouvia o leve murmurar dos pinheiros e das águas do enorme lago negro espelhado. Depressa todos se aperceberam de quanto gostavam da companhia duns dos outros: Kelly acabou por se soltar, ensinou as raparigas a andar com um pé à frente do outro (embora tivesse dado Klair como um caso perdido) e falou-lhes da sua família que agora viva da Holanda, de onde ela tinha captado um leve sotaque). Hannah deixou um pouco o seu aspecto sombrio para trás e conquistou a confiança de toda a gente, falou-lhes da Albânia e de todo o mistério que havia à sua volta. Katie e os gémeos (em especial Fred) davam-se às mil maravilhas, trocaram ideias para partidas e decidiram encher Filch com banha de Dragão no último dia de aulas. Sophie e George continuavam a arreliar-se mutuamente, ela chegou mesmo a obrigá-lo a trepar a uma árvore, só mesmo para impedir que ela lhe transfigurasse as orelhas em ameixas ressequidas. Hermione e Patrick discutiam magia negra (matéria onde este parecia ser bastante informado), Klair descalçou-se e meteu-se dentro do lago, na esperança de ver alguma criatura submarina enquanto Jennifer e Harry se sentaram debaixo de um grande pinheiro a conversar com as pontas dos dedos a tocarem-se levemente.
- Com mil centauros! – amaldiçoou Klair – Já são cinco para as oito!
- E qual é o problema? – perguntou Jenny da margem.
- E?! Eu digo-te qual é o problema! O idiota do Snape pôs-me de castigo e espera que eu esteja no gabinete às oito! A sério, quem é que põe alunos de castigo logo no primeiro dia?!
- Eu avisei… – disse Harry.
De repente, Klair, que se tinha começado a dirigir para a margem, a fim de se calçar e de se começar a dirigir para o castelo escorregou num seixo rolado cheio de musgo, lá muito a custo, depois de muito esbracejar, conseguiu recuperar o equilíbrio. Kate (depois de segredar algo a Fred) aproximou-se dela e perguntou-lhe:
- Aquilo não é uma criatura submarina?!
- Aonde?! – perguntou Klair cheia de curiosidade ao virar-se para trás.
Kate aproveitou a distracção de Klair, espeta-lhe a varinha maldosamente nas costelas e…splash!Ela não resistiu e caiu redondamente no lago, ficando encharcada dos pés à cabeça.
- Isto não seria tão grave assim se eu não fosse cumprir castigo já a seguir – comentou Klair escorrendo o cabelo com as mãos depois de se levantar. – agora tenho que decidir se fico ainda mais de castigo por chegar atrasada para ir mudar de roupa ou se apareço completamente encharcada no gabinete do Snape.
Kathryn, assim como os gémeos começaram-se a rir compulsivamente, Klair não percebeu porquê, não tinha piada nenhuma. Queria ver se fosse ela.
- Oh, vá lá – brincou Jenny picando-lhe o olho – não fiques tão séria, ele até pode gostar.
Ron soltou uma sonora gargalhada, assim como Harry.
- Sim, sim, riam-se. Quanto a ti – acusou Klair apontando o dedo a Jenny - Se eu não tivesse respeito pela sagrada instituição que é a família estavas já a apanhar uma valente carga de pancada.
- Quanto a isso – declarou Jennifer com um sorriso – não tenho a menor das dúvidas.
- Agradecemos o teu sacrifício – disse George solenemente apoiando uma mão no ombro de Klair – que esta semana mais nenhum aluno seja injustiçado para além de ti!
Klair fez uma careta aos gémeos, pegou no seu saco e foi subindo a colina que dava para a grande porta de carvalho da entrada, pingando a relva à medida que andava. Quando chegou à entrada, empurrou a porta e sentou-se no chão frio de pedra, calçou os sapatos (que tinham sido os únicos a sobreviver à molha) e começou a caminhar para as masmorras enquanto se tentava recordar de um feitiço para se secar rapidamente. Estacou assim que viu a porta de ébano do gabinete onde era suposto cumprir o seu castigo. O feitiço de que precisava estava mesmo na ponta da língua mas não conseguia lembrar-se exactamente de como era. Ao longe ouviu-se um relógio que indicava que as oito horas tinham chegado, não podia demorar-se muito mais se não acabaria por perder mais pontos. De repente Klair ouviu movimento do outro lado da porta, Snape provavelmente apercebera-se da agitação no corredor. Klair acabara de se lembrar de uma coisa que a poderia ajudar quando viu a maçaneta a rodar
Capítulo IV: A péssima aula de Tullman
Novembro 6, 2008
No dia seguinte, Jenny acordou com alguém a saltar-lhe em cima.
- Hey, tu! Acorda! – dizia-lhe uma voz feminina
“- Por favor faz com que se vá embora, por favor faz com que se vá embora” – pensava ela.
- Gárgulas galopantes! – continuou a voz – que preguiçosa! Aguamenti!
Jennifer sentiu um jacto de água a atingi-la mesmo na cara e ficou completamente encharcada. Levantou-se num salto e começou a escorrer a água do cabelo. Sophie estava de pé, já vestida, a olhar para ela com a sua varinha na mão.
- Desculpa lá o mau jeito mas teve de ser. Se não te levantares já vais chegar incrivelmente atrasada, e não ias ficar lá muito bem vista, ainda por cima logo no primeiro dia…
- Está bem, está bem. Eu despacho-me.
- Está bem, então eu espero por ti para descer para o pequeno-almoço, estou lá em baixo à tua espera.
Sophie desceu as escadas do dormitório e deixou Jenny sozinha. Secou-se e vestiu-se em cinco minutos e apressou-se a ir ter com a amiga. Quando lá chegou deparou-se com um estranho espectáculo: um dos gémeos Weasley (qual, Jenny não era capaz de especificar porque eles eram iguaizinhos) estava pendurado no ar por um tornozelo enquanto Sophie segurava na varinha com um mão e uma galinha de borracha com a outra.
- Estou farta, George! – gritou Sophie para o rapaz – é a quinta varinha falsa esta semana e é só terça-feira.
- Devias sentir-te orgulhosa! – respondeu-lhe George – Desperdiçámos grande parte do nosso stock só para te chatear. É uma grande honra!
- Metes-me nojo – disse Sophie com um olhar de repulsa
- O sentimento é mútuo – retorquiu George com um enorme sorriso
- Ah, Jenny - disse Sophie ignorando completamente o gémeo pendurado no ar – vamos embora?
- Hmm… sim?…
- Então e eu?! – perguntou George – quer dizer, eu saía daqui sozinho só que dá muito trabalho e é mais giro se fosses tu a tirar-me.
- Anda lá Jenny, ignora o falhado.
- Falhado?! Sinto-me deveras insultado! – gritou-lhe George fazendo um ar completamento falso de quem estava imensamente ofendido.
- Vamos? – continuou Sophie.
- Não seria melhor tirá-lo lá de cima? – sugeriu Jenny
- Não, anda embora, vamos chegar atrasadas.
- Hm… ok.
Iam a trepar pelo buraco do retrato da Dama Gorda quando Sophie se virou para trás e murmurou qualquer coisa. Ouviu-se um “back” seco e uns protestos de dor que indicavam que George Weasley tinha sido deixado cair de cabeça no chão da sala comum. Nos lábios de Sophie nasceu um sorriso perverso
- Olha… – começou Jenny enquanto caminhavam pelos corredores – o que é que se passa contigo e com o George?
- Hm? O quê? Não se passa nada – respondeu Sophia livrando-se da galinha de borracha – ele é só um idiota que gosta de me pregar partidas e agora inventaram umas varinhas estúpidas que se transformam em galinhas de borracha ou em chapéus e passam a vida a trocá-las pela minha.
- Ah… ok – Jenny achava que aquele atrito todo entre Sophie e George queria dizer que gostavam um do outro, mas decidiu não dizer nada. Afinal, não a conhecia assim tão bem por isso decidiu mudar o rumo da conversa – Que feitiço era aquele? Nunca vi nada assim!
- Chama-se Levicorpus e o para soltar é Liberacorpus. É super simples, li-o num livro qualquer quando andava no terceiro ano. Mas só agora é que consigo fazê-lo como deve ser, antes as pessoas levantavam-se uns centímetros do chão e voltavam a cair de cabeça logo a seguir. A Katie disse-me que isso tinha a ver com qualquer coisa do nosso poder mágico mas já não me lembro bem.
- Quem é a Katie? – quis saber Jenny
- É uma amiga minha de Hufflepuff eu depois apresento-ta. Acho que vais gostar dela. É uma querida. Bem, é aqui – disse Sophie puxando Jenny por umas escadas que se tinham começado a mexer.
- As escadas costumam fazer isto? – perguntou Jenny preocupada
- Claro! Achas divertido ficar no mesmo sitio o dia todo?!
Jennifer abriu a boca para falar mas não conseguiu dizer nada. Nunca tinha visto uma escola onde houvesse fantasmas a circular livremente, quadros que falavam, escadas que se aborreciam por estar no mesmo sítio e onde fosse permitido pendurar os colegas de equipa pelos tornozelos no ar. Desceram mais umas escadas e passaram por mais umas portas até que chegaram ao Salão.
Não se encontrava muito cheio uma vez que a maior parte dos alunos já tinha tomado o pequeno-almoço. Mas Klair, Ron, Hermione e Harry ainda lá estavam. Klair comia uma torrada e estava debruçada sobre o que parecia ser um livro a escrevinhar enquanto, sabe-se lá porquê, Ron fazia um pedaço de bacon levitar. Harry e Hermione estavam a conversar ligeiramente afastados de Ron e Klair. Jenny não soube na altura porquê, mas aquela imagem aborreceu-a profundamente.
Jenny apressou-se a sentar-se ao lado de Klair e apresentou Sophie ao resto do grupo.
- Sophie?! – perguntou Ron – Sophia Baxtor?! O Fred e o George dizem que és uma boa peça.
- Obrigada – respondeu ela secamente
Ron calou-se imediatamente e voltou a concentrar-se na levitação do bacon.
- O que é que ela está a fazer? – perguntou Sophie a Jenny, apontando para Klair que continuava a rabiscar no que parecia ser um manual escolar.
- Ritual anual da correcção do manual de poções. – elucidou Jenny – No inicio de todos os anos lectivos a Klair corrige o livro de poções e adiciona as suas sugestões. O que é óptimo porque depois posso copiar por ela. O ano passado tive um Brilhante no teste de poções à conta das anotações dela.
- 35 – disse Klair de repente fechando o livro.
- Só? – disse Jenny admirada. – o ano passado foram 153
- Estamos a falar de quê? – perguntou Sophie
- Erros ortográficos – esclareceu Klair – inconsistências técnicas foram só umas 15. Os livros ingleses são bastante bons. Em Portugal havia com cada asneira…
- Ela é um bocado croma – justificou Jenny
- Hey! – queixou-se Klair – eu estou mesmo aqui!
- Mas tu precisas de ouvir as verdades. Vamos embora que se está a fazer tarde. Não queremos chegar tarde à aula de poções, pois não? – disse Jenny, sorrindo para Klair, que por sua vez lhe deitou um olhar fulminante.
Antes de se levantar, Ron tinha conseguido finalmente, através de levitação, pôr a fatia de bacon em cima da torrada de Klair sem que ela se apercebesse. Ia dar a última dentada quando Jenny lhe tirou o pão das mãos e deu uma bofetada ao Ron, que se justificou dizendo que não era humanamente possível não comer carne durante mais de doze horas.
Desceram todos juntos até às masmorras (sim, porque as turmas do 4º ano eram mistas, ou seja, tanto Ravenclaw como Gryffindor, assim como Slytherin ou Hufflepuff tinham aula juntos), onde era a sua primeira aula. Quando lá chegaram, a maior parte dos alunos já estavam sentados, embora o professor ainda não estivesse lá.
Klair instalou-se num caldeirão e Sophie e Jenny ocuparam os que estavam imediatamente ao lado do dela. Helena, a rapariga do comboio, também estava lá, do outro lado da sala, assim como Hannah, a rapariga Albanesa que tinham conhecido na noite anterior.
De repente, o professor que Klair tinha visto na noite anterior entrou pela sala. Completamente vestido de preto, com a cara emoldurada por duas cortinas de cabelo preto e oleoso. Os seus olhos pretos e maldosos sondavam a sala como que a julgar os alunos.
- Se vejo uma varinha sequer ficarão de castigo até ao próximo ano. – foi a primeira coisa que disse – E… – olhou propositadamente para Harry – …Qualquer desrespeito das regras, qualquer que seja, resultará na expulsão imediata.
-Como é que é suposto nós não transgredirmos as regras se não sabemos quais são? – perguntou Jenny ao ouvido de Klair.
- Miss Blomwood – disse calmamente o professor (e mais tarde Jenny e Klair chegaram à conclusão que Severus Snape era bem mais perigoso quando estava calmo) – importa-se de guardar os seus comentários insuportavelmente impertinentes para si?
Jenny engoliu em seco. Era mesmo daquilo que ela tinha medo; professores injustos e com a mania que eram superiores.
- Fogo, que mau humor – murmurou Klair para Jenny o mais baixo que pôde – Eu até te dizia de que é que ele precisava para ficar mais bem-disposto mas até te calavas.
Nem Jenny nem Klair conseguiram reprimir uma pequena gargalhada.
- Miss Tullman e Miss Blomwood, talvez não tenha sido claro o suficiente. Não estou para aturar as vossas interrupções constantes e os vossos comentários idiotas. No entanto, se a vossa conversação era assim tão interessante, de certeza que a podem partilhar com o resto da turma.
Jenny corou e desviou o olhar, era horrível ser repreendida daquela maneira logo no primeiro dia. Contudo, como era costume, Klair não desviou os olhos e manteve-os fixos no professor.
- Menos 15 pontos para Ravenclaw e Gryffindor. – anunciou ele – E já que estavam a achar a aula tão divertida, talvez, Miss Tullman me possa dizer a lista inteira de ingredientes necessária para confeccionar a poção Polissuco?
- Mas com certeza – respondeu Klair com um sorriso amargo sentindo-se bastante aliviada por Snape lhe ter perguntado a ela e não a Jenny – Moscas de asa de renda, fluxo de cizânias e verdezelha, sanguessugas, pó de chifre de bicórneo, mandrágora picada e, obviamente, um bocado da pessoa em que nos queremos transformar.
- Dez pontos retirados a Ravenclaw. – disse Snape com um um horrível sorriso de superioridade nos lábios.
- Mas a minha resposta estava certa! – protestou Klair.
- Não creio que mandrágora picada esteja na lista de ingredientes.
- Isso é verdade – justificou-se Klair – é óbvio que não está. Fui eu que adicionei. Aqui há uns anos descobri que a mandrágora tem certas propriedades que estabilizam a poção. Assim, em vez de durar uma hora dura cerca de duas.
- Menos 5 pontos para Ravenclaw.
- O quê?! – exaltou-se Klair – Qual é a desculpa desta vez?
Snape aproximou-se de Klair e debruçou-se até ficarem mesmo frente a frente.
- Eu – disse ele quase num murmúrio com a sua voz gélida – não preciso de desculpa para nada.
Endireitou-se deixando Klair a tremer ligeiramente e dirigiu-se à turma.
- Têm uma hora para preparar uma poção à vossa escolha. Podem começar.
Klair prendeu o cabelo com uma espécie de pauzinho chinês que costumava ter no bolso de trás e começou a trabalhar. Tinha decidido fazer uma poção bastante intrincada chamada a Poção do Lobo, que permitia que, durante a lua cheia, pessoas infectadas com lincantropia apenas se transformassem em lobos mansos. Após algum tempo, estava convencida que era o seu melhor trabalho até àquele dia. As proporções de ingredientes eram perfeitas e o liquido do seu caldeirão estava exactamente da cor descrita no livro.
-Hey, Klair – chamou Jenny baixinho – podes vir aqui ajudar-me?
Klair deixou (sem usar uma varinha, não fosse algo de catastrófico acontecer) a colher a mexer o conteúdo muito lentamente sozinha e aproximou-se devagar do caldeirão da prima.
- Tentei fazer a Amortencia – explicou-se Jenny apontando para o conteúdo do caldeirão que era dum verde lamacento e cheirava tão mal como um esgoto – E pensei que tinha feito tudo bem, mas olha para isto!
- Não é grave – declarou Klair – é só pores mais suco de borboleta africana e acho que, em principio, fica tudo bem.
- A sério? Obrigada.
Quando Klair voltou para junto do seu caldeirão reparou que Helena estava a rondá-lo com um sorriso maldoso no rosto.
- O que é que estás aqui a fazer?! – perguntou ela a Helena.
- Eu? – respondeu ela com um ar falsamente doce enquanto escondia um frasco atrás das costa – nada, estava sou a ver como é que os meus colegas se estavam a sair.
- Então o que é estás a esconder? – perguntou Klair agarrando a varinha dentro do bolso, pronta para fazer crescer fungos na cara de Helena.
- Nada que te interesse – respondeu ela.
- Duvido, passa para cá.
- Não! E se tentares sequer, tenho a certeza que o professor Snape vai gostar de ouvir dizer que tu tentas-te atacar a aluna preferida dele.
Klair calou-se, aquela não era altura indicada para iniciar um luta com Helena.
- Vai-te encher de moscas… – disse-lhe entre dentes.
- O que é que disseste?! – perguntou Helena muito alto.
- Nada! Vai-te embora.
Voltou-se para o seu caldeirão: o seu conteúdo outrora fluído e brilhante era agora espesso e cor-de-rosa vivo. E, coincidência das coincidências, o tempo tinha acabado e Snape começara agora a rondar os caldeirões para ver os resultados.
Klair mordeu o lábio, pelo cheiro era óbvio que Helena tinha posto wolfsbane na poção dela e que agora estava completamente arruinada. Podia-se, por mais duma determinada coisa, mas uma vez que já lá estava não havia maneira de a remover. Que raio de sorte.
- Ah – disse Snape com um sorriso de satisfação no rosto quando chegou ao caldeirão de Klair – também achei que a arte subtil que é o fabrico de poções demasiado complexa para uma adolescente idiota e insolente.
- Eu não sou idiota – começou Klair tentando evitar a sua mão de tremer tal era a raiva que sentia – muito menos insolente. Esta poção estava prefeita há 5 minutos atrás.
- Para quê mentir, rapariga parva? É óbvio que decidiste fazer uma poção demasiado complexa para ti. Pelo cheiro é claro que o problema é…
- Wolfsbane a mais – completou Klair – eu sei.
- Menos 5 pontos para Ravenclaw. Agradecia que não me interrompesse. Se sabe que o erro foi seu, porque é que não o admite?
- Porque não errei em nada.
- Então está a tentar dizer que um frasco de wolfsbane caiu aí para dentro de livre e espontânea vontade?
- Não, estou a tentar dizer que alguém sabotou a minha poção. Eu não cometo erros, muito menos em poções, que costumava ser a minha disciplina preferida. Eu pus a quantidade exacta no caldeirão.
- Obviamente que não.
Klair passou a mão pelo cabelo. Que irritante, seria assim tão difícil compreender as coisas? Teria ela que explicar tudo?
- Foi e Helena – anunciou sem ter tido tempo de considerar as consequências do que acabara de dizer. – Via despejar qualquer coisa para dentro do meu caldeirão.
De repente, Jenny, vinda do lado esquerdo de Klair disse:
- É verdade, eu vi.
- Eu também – afirmou Sophie.
- Menos 15 para Gryffindor. – disse Snape obviamente divertido com o rumo dos acontecimentos. Depois, virou-se para Klair – Quanto a si, Miss Tullman, tem de apreender a controlar o que diz. Está de castigo durante uma semana e conseguiu fazer com que a sua equipa tivesse pontos negativos logo no primeiro dia. Deve ser um novo recorde, nem mesmo os Weasleys… Podem sair.
Klair apressou-se a pegar na sua mala e a sair. Se ficasse durante muito mais tempo acabaria por arrancar a cabeça a alguém. Atravessou o corredor escuro das masmorras e correu pelo hall de entrada até chegar aos jardins da escola. Largou o que tinha nas mãos junto de uma árvore e deixou-se cair à sombra a contemplar o céu azul e a pensar na sua triste sorte. Mas, de repente, começaram-se a ouvir uns zumbidos no ar. Várias dezenas de vassouras sobrevoavam os campos e viam-se também nuvens dum tom púrpura que indicavam que havia máquinas fotográficas envolvidas. A frota de vassouras foi voando cada vez mais baixo, mais baixo, até que aterraram a escassos metros de Klair e pode ser o que se passava: vários homens vestidos com mantos negros, montados em vassouras rodeavam uma jovem. Mas não era uma rapariga qualquer, o seu cabelo era tão louro que parecia branco, com lindos canudos, tinha um corpo esguio e perfeitamente proporcionado, os seus olhos eram do azul mais límpido que podia existir. A sua cara era duma beleza extrema; o nariz estava exactamente a meio da cara, os seus lábios eram em forma de coração e tinham a tonalidade de vermelho prefeita para a sua pele pálida. Vestia um vestido leve de seda prateada que combinada às mil maravilhas com o seu cabelo. Vinha montada numa vassoura preta como as outras mas a sua rama era dourada. Montava-a com duas pernas viradas para o mesmo sítio, como as damas antigas que montavam cavalos e desceu com uma delicadeza, uma graça tão grande que parecia que todos os movimentos que fazia eram em câmara lenta. Sacudiu a longa cabeleira platinada, colocou uns óculos escuros e avançou lentamente pelo relvado rodeada pelos homens vestidos de preto e pelos fotógrafos que a fotografavam como loucos, lançando grandes nuvens de fumo roxo cada vez que lhe tiravam uma fotografia.
- Estás bem? – perguntou uma voz, depois de Klair desprender o olhar da enorme porta de carvalho por onde a bela rapariga tinha acabado de desaparecer. Quem lhe falava era uma jovem que Klair tinha visto na aula de poções mas que não conhecia. O seu sotaque era claramente inglês mas tinha traços orientais, era muito morena, tinha uns lindos olhos castanhos e era bastante mais baixa e mais magra que Klair.
- Chamo-me Kate – continuou ela sentando-se ao lado de Klair. – Que brutalidade, não é?
- O quê? – perguntou ela, que ainda estava um pouco distraída.
- Em poções. – esclareceu – Eu achei incrivelmente injusto. Por falar nisso, o Snape mandou-me dizer-te que o teu castigo começa hoje às 8 e que vais ter que pôr miolos de rato em conserva e que não vale a pena levares luvas.
- Bem, se o vires, diz-lhe que não ia levar de qualquer maneira.
Kate riu-se.
- Não sei se seria boa ideia. Os Hufflepuff são quase sempre os com menos pontos, não vale a pena perder mais. De qualquer maneira se eu fosse a ti deixava de responder aos professores, especialmente ao Snape. A pessoas mais discretas ele não tira pontos.
- Olha lá – disse Klair tentando mudar de assunto, não queria falar mais sobre aquilo, estava a ficar seriamente deprimida – quem era aquela rapariga? Aquela que veio com aquelas vassouras todas.
- Chama-se Kelly Maddox. É uma modelo muito conhecida no mundo da feitiçaria. A mãe dela é uma Veela e o pai é um modelo americano. É o primeiro ano dela cá e acho que vai ficar na nossa turma, ela parece muito mais velha mas só tem 15 anos. Mas não te preocupes, o Dumbledore disse que não queria cá a imprensa nem guarda-costas. Por isso amanhã vão se embora e só voltam quando o Torneio dos Três Feiticeiros começar. Mas agora anda lá, temos de ir para a aula de história de magia, sai-me lá dessa depressão toda, rapariga!
Klair emitiu um ruído que se assemelhava vagamente a “está bem”. Kate, que Klair achava muitíssimo simpática e com os pés assentes na terra, ajudou-a levantar-se e foram para dentro do castelo.